Lilinho. Signo: peixes.
Na semana passada, o Brasil inteiro discutia a polêmica do comercial da Hope. O Brasil inteiro, com a exceção de uma pequena vila no sul do país chamada Porto Alegre, onde a polêmica girava em torno de outro comercial: o filme do “Lilinho”.
Para quem me lê de outras paragens, explico: Lilinho é o personagem de um belo comercial de 4 minutos (!) da rede de farmácias Panvel. Um peixinho de aquário que morreu, e os pais, para pouparem a filhinha do sofrimento da perda do bichinho de estimação, substituíram-no por outro peixe igual, sem que a criança percebesse. Veja o poético comercial aqui:
A polêmica toda gira em torno do tema do filme: é razoável um pai fazer o que o locutor prega e poupar as crianças das notícias ruins? Ou ele está criando uma criança dentro de uma redoma de vidro, despreparada para a vida real?
Não quero entrar aqui nesse mérito. Meu ponto é outro.
O texto desse comercial já havia sido publicado na íntegra há 3 anos no jornal local, na coluna de seu autor, Zé Pedro Goulart (que, não por coincidência, é diretor do comercial). Eu li, o Lombardi leu, todo mundo leu – mas ninguém na época levantou nenhuma questão a respeito. Era um texto bastante poético, bem escrito (como todos os textos do Zé Pedro), narrando a maneira particular como um pai resolveu agir frente à morte do peixinho da filha. E ponto final.
Interessante observar que agora o mesmo texto, só que acrescido de imagens, uma bonita trilha e uma logomarca no final levanta a polêmica. Porque isso?
A sensação que tenho é que um cronista colocar sua opinião é uma coisa. Uma marca endossar um comportamento é outra. Aquilo que era uma visão individual inofensiva nas páginas de um jornal passa a adquirir tons de verdade quando vira propaganda. Se está na TV, é porque deve ser mesmo. Alguém (uma marca) está ali na tela me dizendo que esta é a melhor forma de lidar com as crianças frente a situações complicadas. A opinião livre do cronista passa a ser entendida como regra de conduta – em função da maneira como as pessoas recebem a publicidade.
Mais do que um comercial, uma prova real e impressionante do poder que aquilo que fazemos e dizemos na nossa atividade tem sobre o público.
Eduardo Axelrud é diretor nacional de criação da Escala