Ponto de vista

A classe C e seus luxos

i 17 de outubro de 2011 - 4h38

A classe média brasileira tem resistido a fazer algumas mudanças em sua cesta de compras, apesar do desaquecimento do consumo no país neste ano. Esta resistência pode ser reflexo da tentativa desse consumidor de manter a melhor posição sócio-econômica conquistada nos últimos anos. Ele quer evitar perdas na qualidade da cesta, conforme constatou levantamento da consultoria Kantar Worldpanel realizado em 8,3 mil domicílios no país.
Após anos de demanda reprimida, o consumidor conseguiu colocar algumas novas mercadorias no carrinho e ele não quer mais abrir mão disso. Podem, inclusive, trocar o tipo de arroz ou feijão para manter os ganhos que já tiveram na cesta.
O estudo apontou estabilidade no volume comprado de mercadorias consideradas básicas, mas os itens não básicos tiveram uma expansão de 6% no volume comercializado no primeiro semestre. Para efeito de comparação, os itens básicos estavam crescendo de forma vigorosa até o ano passado. Em 2010, houve alta de 10% no volume vendido e no ano anterior, de 15%. A perda de ritmo neste ano não tem relação com a base alta de comparação, afirmam os consultores. Se fosse apenas efeito estatístico, o segmento de produtos básicos teria verificado algum crescimento, o que não ocorreu.
Dados do estudo relativos ao primeiro semestre do ano confirmam a desaceleração do ritmo de crescimento em todas as classes sociais em 2011, algo comentado nas últimas semanas por algumas varejistas e membros das indústrias. As classes AB e C apuraram alta tímida de 2% na quantidade comprada de janeiro a junho. As classes D e E registraram estabilidade. Neste caso, são analisados todos os itens (básicos e não básicos) em 63 categorias de produtos. Nos últimos semestres, o índice não esteve abaixo dos 10%.
O efeito inflacionário tem forte peso nessa perda de fôlego. O reajuste médio dos produtos comprados pela nova classe média (classes C e D) foi de 7% neste ano, mostra a pesquisa. A taxa é inferior às classes altas e médias de 9% na cesta, mas a inflação afeta muito mais o bolso da classe baixa, visto que a renda média dessas famílias é menor.

* Carlos Cotos é diretor-executivo da Kantar Worldpanel Brasil