O desafio dos descartáveis para o marketing
Quando eu era criança, lembro bem que a gente ia tomar injeção na farmácia e via sempre a mesma seringa de vidro, o mesmo êmbolo e a mesma agulha fervendo na estufa, esperando pelo próximo paciente. Hoje, tomar injeção de uma seringa que não seja descartável é impensável.
O descartável está em toda parte: na sacola plástica, no absorvente feminino, nas fraldas, nas peças da indústria eletrônica. Tudo isso hoje é usado uma única vez e nunca mais. Essa realidade pôs em movimento uma série de dinâmicas dentro da área de marketing. Fez surgir uma conjuntura que impulsionou a criação de novos produtos, trouxe mecânicas diferentes e aumentou sensivelmente a produção, fazendo com que a economia deslanchasse de maneira significativa.
Além desses processos novos e hábitos novos, temos, de um lado, a obsolescência tecnológica – que acelera a troca dos produtos duráveis –, e, de outro, a própria questão da moda, que nos faz trocar de carro todo ano, de roupa a cada estação, etc.
O que a gente não conseguiu fazer ainda com precisão foi olhar para essa questão com uma visão específica de marketing. Como essas coisas vão transformar a relação de quem faz marketing com os seus produtos. De que modo nós, que trabalhamos com marketing, podemos deixar de olhar essa questão como um ponto isolado e começar a entender que ela provavelmente vai estabelecer uma dinâmica diferente para todo o nosso trabalho.
A crescente preocupação com a sustentabilidade, por exemplo, que influencia tremendamente a área de marketing, pode nos levar agora a um novo movimento de grandes proporções. Essa é uma preocupação que eu acho que a gente ainda não começou a ter. Ainda estamos na fase pontual dessa questão. Como serão os novos ciclos de vida dos produtos? Como fazer com que este ciclo englobe também a origem dos insumos e o destino dos descartes após o final da vida útil? Como propor modelos de negócio que valorizem a sobrevida dos produtos e não a sua substituição?
A descartabilidade movimentou o marketing nos últimos anos. Ainda nos falta o exercício de refletir sobre como essa questão vai impactar o marketing nos próximos anos. Um longo e importante caminho se apresenta para nós.