Idosos da publicidade, uni-vos
Os 40 são os novos 60 e estamos mais prontos do que nunca para essa conversa
Tenho conseguido navegar bem pelos mares dos 40. Comecei a usar óculos pra voltar a enxergar de perto, estou repondo hormônio pros sintomas da perimenopausa, tomei algumas agulhadas pra levantar meu rosto derretido e me disciplinei a ir na academia cinco vezes por semana pra proteger minha massa magra da menopausa.
Mas tem um mar específico que está difícil de lidar nessa fase: o do mercado de trabalho. Eu sei que foi uma grande coincidência, mas recebi minha primeira demissão aos 40 anos, 2 meses e 13 dias, como estaria nas pulseirinhas dos laboratórios que passei a frequentar com mais frequência. E depois de mais de 20 anos de uma experiência consistente, sólida e premiada, tem sido cada vez mais difícil ter a estabilidade que eu tive durante toda a minha carreira.
Claro que o contexto conta muito, essa mistura de fusões com Claude, o cenário econômico turbulento e tudo mais, e eu não tô dizendo que é pessoal ou etarismo (talvez um pouco de etarismo, vai), mas o contexto bate diferente aos 40. Com salários mais baixos na mesa por conta de cortes constantes de custo, e posições cada vez mais juniores, quem fica com as vagas são os jovens. Já vi até vaga afirmativa para pessoas acima de 40 anos.
Envelhecer na publicidade causa uma angústia que só o passar dos anos traz, a gente não pensa nisso até precisar pensar. Estou relativamente tranquila com o meu futuro profissional (mentira, tem dia que eu fico bem desesperada), mas fica uma pulguinha do mal atrás da orelha que coça de vez em quando.
E eu também fiz um movimento fora do padrão, resolvi sair da direção de criação e voltar pra redação. Quantas pessoas você conhece na criação que têm mais de 40 ou 50 anos? No chão de fábrica, não na liderança. Pois é. Frequentemente eu sou qualificada demais ou cara demais, mesmo explicando com todas as letras que sou mais feliz assim e já tendo baixado o meu salário junto com o cargo.
Durante toda a minha trajetória, eu nunca tive medo de ser demitida, muito pelo contrário. O tradicional ego que vem acompanhado da nossa formação me garantia que eu nunca passaria por isso. Depois da primeira demissão, aos 40, tenho medo de ser demitida todos os dias. Não pelo trauma em si, que realmente é uma (pode falar palavrão aqui?), mas pelo medo de que a essa altura do campeonato o mercado não me queira mais, mesmo tendo realizado tanto e ainda tendo tanto a realizar.
O mesmo medo que eu tive quando precisei parar por dois anos pra cuidar do meu marido doente, aos 30. Consegui voltar depois do gap e conquistei coisas que eu nem achei que estariam ao meu alcance, mas bate diferente agora. Temos família para sustentar, o valor do plano de saúde é altíssimo, o tempo que resta de produtividade é menor pra continuar fazendo caixa pra aposentadoria. Bate diferente agora que a idade avançou.
Imagino que seja por isso que o empreendedorismo acompanha os publicitários, o plano B que complementa renda e talvez um dia vire o plano A. Eu mesma estou respirando fundo pra começar uma nova graduação porque já disse aqui em um artigo anterior que pessoas entre 45 e 54 anos são apenas 5% dos colaboradores em uma agência de publicidade – de acordo com uma pesquisa do Great Place to Work – e arrisco dizer que eles têm um C na frente do nome do cargo.
Prometi que ia dar um tempo dos artigos inconformados e estou cumprindo. Este artigo é mais um abraço do que uma reclamação ou uma cobrança. Idosos da publicidade, uni-vos. Nós não estamos sós.