Opinião

O que a sustentabilidade quer da gente é coragem

Na Climate Week, ficou claro que escalar soluções climáticas exige dividir riscos e contar o que deu certo

Bettina Grajcer

Sócia fundadora da Auíri, agência da Holding Clube 5 de outubro de 2026 - 16h00

Passei a última semana em Nova York acompanhando a Climate Week e os encontros que acontecem na cidade durante a Assembleia Geral da ONU. Também participei do Concordia Annual Summit, a convite da AB InBev Foundation, onde apresentei uma experiência brasileira de prevenção em saúde.

Encontrei clientes, parceiros e muitas grandes companhias brasileiras, de bancos a mineradoras, com agendas intensas do começo ao fim. A presença delas mostra que o clima entrou de vez na pauta econômica. Três assuntos estavam em praticamente todas as salas: geopolítica, inteligência artificial e minerais críticos. A justiça social, que ocupou tanto espaço na COP30, em Belém, apareceu bem menos, e em um dos painéis foi uma executiva da Vale quem a trouxe para o centro da conversa.

A mensagem mais forte que trago, porém, é outra. Já sabemos o que funciona, e o gargalo agora é sair dos pilotos e ganhar escala. Escala depende de alguém disposto a assumir risco.

Capital existe. O que falta é quem aceite ir primeiro. Um piloto tem orçamento limitado, exposição controlada e pode ser encerrado sem grandes consequências. Escalar exige mudar a cadeia de fornecedores, rever contratos, preços e processos, e quem faz isso primeiro paga pelo aprendizado que depois servirá a todos. Por isso tantas boas iniciativas ficam paradas na fase de teste.

Ao mesmo tempo, o risco de ficar parado cresce. Com o El Niño já estabelecido e a perspectiva de eventos extremos mais frequentes e intensos, a conversa deixa de ser abstrata. Nenhum seguro vai cobrir todas as perdas de um mundo cada vez mais exposto ao clima, e esse custo já começa a aparecer nos balanços, nas cadeias de suprimento e no preço dos alimentos.

A saída que ouvi repetidas vezes foi a do risco compartilhado. Governo e iniciativa privada precisam construir juntos os mecanismos que tornem a transformação viável, como garantias, financiamento combinado entre recursos públicos e privados e contratos de longo prazo que deem previsibilidade a quem investe. Se a barreira é regulatória, é preciso corrigi-la. Se é econômica, é preciso desenhar um modelo que pare em pé. E novas tecnologias podem mudar essa conta, reduzindo custos e medindo resultados com mais precisão.

Vi esse movimento na agenda de agricultura regenerativa apresentada pela Nestlé. A empresa usa a própria escala e a cadeia de fornecedores para acelerar a mudança de práticas no campo, justamente onde o produtor sozinho dificilmente assumiria o risco da transição.

Também acompanhei um painel sobre economia circular em que o Grupo Boticário apresentou o Boti Recicla, seu programa de logística reversa, e compartilhou, em primeira mão, uma conquista importante que deve ser anunciada em breve. Não vou estragar a surpresa, mas é daquelas que mostram como iniciativas brasileiras podem ganhar escala e se tornar referência muito além do país.

Talvez seja possível resumir o que ouvi em três Cs. Compromisso, porque alguém precisa decidir assumir o risco. Colaboração, porque ele fica menor quando é dividido. E consistência, porque os resultados demoram e a iniciativa precisa continuar depois que o tema deixa de ser novidade. Vejo isso também no trabalho de prevenção ao consumo nocivo de álcool que acompanho há anos com a fundação: problemas complexos só avançam com os três juntos.

É aqui que a comunicação entra. Quem assume o risco de ir primeiro precisa contar o que aprendeu, porque cada caso bem-sucedido facilita a decisão dos próximos. Durante muito tempo, discutimos com razão empresas que falavam mais do que faziam, e o greenwashing continua sendo um problema. Nesta semana, porém, tive várias vezes a sensação oposta: vi iniciativas que mereciam ser muito mais conhecidas. O agro brasileiro é um exemplo. Há desafios ambientais importantes, e há também uma história de agricultura de baixo carbono, plantio direto, recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária-floresta que raramente chega ao público com a mesma força que a imagem negativa do setor.

Contar bem também ajuda a mudar o comportamento. A economia circular depende de alguém devolver a embalagem, e novos padrões de consumo e de uso de energia dependem de milhões de decisões individuais. Passamos anos explicando metas, carbono e compromissos para 2030 ou 2050, e talvez tenhamos complicado demais a sustentabilidade para as pessoas. Mostrar o que funciona e como cada um pode participar mobiliza mais do que repetir que o mundo vai acabar.

Durante anos, a pergunta feita às empresas foi “qual é o seu compromisso?”. Nesta Climate Week, ela veio acompanhada de outra: “onde você chegou?”.

Guimarães Rosa escreveu que o que a vida quer da gente é coragem. Volto de Nova York achando que a sustentabilidade quer o mesmo: coragem para ir primeiro, para dividir o risco e para contar o que deu certo, ajudando outros a chegar junto.