Opinião

O que o GEO PR muda de verdade nas relações públicas

Apesar da IA como novidade, desafio segue sendo construir autoridade sobre assuntos que tenham relação direta com o negócio

Lucia Faria

Sócia-diretora da LF & Cia Comunicação Integrada e diretora da APP 9 de outubro de 2026 - 14h00

Se você ainda não ouviu falar em GEO PR, não se preocupe: é tudo novo mesmo. E se já ouviu falar, mas ainda tem dúvidas, fique tranquilo — é tudo novo mesmo! A Inteligência Artificial já invadiu inúmeras áreas e aportou de vez na comunicação, trazendo consigo siglas que parecem complicar o que, no fundo, deveria ser a essência do nosso trabalho. O GEO (Generative Engine Optimization) reúne as estratégias para ampliar a visibilidade de conteúdos nas respostas produzidas por mecanismos de IA generativa. Em outras palavras, trata-se de uma nova disputa por relevância. Marcas querem ser encontradas e reconhecidas também pelas ferramentas de inteligência artificial que hoje sintetizam o conhecimento disponível na rede.

Para posicionar clientes no Google, aprendemos tempos atrás a usar o SEO, utilizando as mesmas palavras-chave em press releases, sites, Wikipédia, LinkedIn e demais conteúdos corporativos com objetivo de subir na lista de resultados. O SEO foi feito para uma disputa de links e cliques. Com a IA, o jogo muda de natureza.

Não há mais uma fila de resultados para escalar. A ferramenta sintetiza uma resposta, escolhe o que citar e associa nomes a assuntos. A pergunta deixa de ser “em que posição apareço?” para se tornar “o que dizem que eu sou?”.

A mecânica é diferente, no entanto, o que faz uma marca ser citada de forma consistente é o trabalho de sempre: autoridade, consistência e fontes que tenham algo a dizer. Nenhum truque técnico substitui a reputação construída. Proponho um teste simples. Pergunte ao Google, ou para a sua IA favorita, quais são as empresas de referência no seu setor. Sua empresa aparece? E, mais importante, o que a ferramenta diz sobre ela?

Imagine duas concorrentes que investem em assessoria de comunicação. Uma conquistou 200 matérias em dois anos sobre contratações, parcerias e lançamentos. A outra, apenas 30 no mesmo período, só que boa parte ligada à inovação. Ao perguntar à IA quais empresas são referência em inovação, a segunda terá construído um território mais claro para ser reconhecida.

Vale uma boa notícia para quem não é gigante. Quanto mais específico o território, mais curto o caminho até a referência. Uma empresa de nicho disputa com poucos concorrentes e precisa de menos rastros consistentes para que a IA a associe a um tema. Já uma marca generalista precisa de um acúmulo reputacional maior para se destacar em temas amplos.

Os rastros que alimentam as LLMs vão muito além da imprensa tradicional. Wikipédia, redes sociais, fóruns, comunidades, marketplaces, avaliações, vídeos e canais próprios — tudo é lido e citado pelos modelos. A imprensa não desaparece, ela se transforma em fonte de autoridade máxima. Estar presente nas conversas tracionadas pelos jornalistas e nas pautas estimuladas para apuração é o que transforma menção em autoridade validada.

Conteúdo não é mais só o rei, agora é onipresente. Alguns grupos de profissionais de RP reforçam há tempos que o press release morreu. Talvez o GEO seja a chance de revisitar essa discussão. O release promocional, cheio de adjetivos e soluções “revolucionárias”, tem pouco a acrescentar. Dados próprios, pesquisas, conhecimento técnico e porta-vozes com algo a dizer ganham importância real.

A empresa controla o que publica em seus canais, mas não controla o que jornalistas e fontes independentes dizem. O site pode afirmar que a empresa é líder e inovadora; se ninguém além dela a associa a esses atributos, existe uma distância perigosa entre o que ela diz ser e a reputação que efetivamente construiu.

E antes que alguém pense em contratar assessoria de comunicação apenas para “aparecer no ChatGPT”, calma. Se a preocupação for meramente agradar às ferramentas, trocamos uma obsessão pelo volume por outra. O desafio segue sendo construir autoridade sobre assuntos que tenham relação direta com o negócio. O que muda, de verdade, não é a ferramenta e, sim, o que passamos a medir e a construir. Não deveríamos mais nos apoiar no volume de aparições, focando no território de autoridade que a IA reconhece.

Afinal, a IA apenas colocou uma nova variável nessa velha e essencial discussão das Relações Públicas. E isso é bem diferente de simplesmente aparecer em uma resposta automatizada.