Opinião

O vendedor de mapas

Nunca tivemos tantos mapas e respostas. E talvez, por isso, esteja ficando cada vez mais difícil encontrar as perguntas certas

Rafael Merel

Diretor de criação da Leo Burnett 24 de setembro de 2026 - 14h00

Estava parado no farol. Um olho no celular, outro vendo se ninguém vinha roubar o celular, quando ele apareceu. O vendedor de mapas. Chegou desenrolando um mapa-múndi no meio dos carros, daqueles de papel, que você precisa abrir com as duas mãos tentando fazer algum motorista sair do seu próprio mundinho e prestar atenção nele.

Fiquei pensando: quem compra um mapa hoje? Aliás, quem vende? E o cara ali, cercado de gente com GPS, trânsito em tempo real e um computador no bolso capaz de responder praticamente qualquer coisa.

Quando ele passou pela janela mostrando a República federativa do Brasil, minha cabeça foi um pouco mais longe. Alguns anos-luz mais longe. E lembrei de O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Depois de milhões de anos de cálculos, o supercomputador mais poderoso do universo finalmente chega à resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais: 42.

Só tem um problema. Ninguém sabe exatamente qual era a pergunta. Nem o que fazer com essa resposta.

E hoje temos resposta pra tudo. Tem dados pra qualquer coisa. E mapa é o que não falta pra chegar em qualquer lugar.

Pesquisas, métricas, dashboards, benchmarks, algoritmos, ferramentas de busca, inteligência artificial. Chegar no “42” nunca foi tão fácil.

O problema é que números são exatos. Pessoas não.

E talvez seja por isso que os melhores estudos sobre comportamento humano raramente tenham sido feitos por estatísticos. Mas por roteiristas.

Todo mundo fala de Seinfeld como a famosa “série sobre nada”. Nunca foi. Era uma série sobre muita coisa. Principalmente, gente.

Sobre alguém que inventa uma mentirinha boba e depois precisa sustentar aquilo pra sempre. Sobre o constrangimento de encontrar um conhecido na rua e não lembrar seu nome. Sobre perder horas discutindo uma vaga de estacionamento. Sobre ficar obcecado por um detalhe que ninguém mais percebe.

Pequenas irracionalidades cotidianas que nos fazem ser quem somos.

Não tem dashboard para isso. Não tem benchmark. Não tem planilha explicando por que alguém passa a gostar de uma marca. Ou deixa de gostar. Ou compra uma coisa querendo comprar outra.

No meio de tanta precisão, muita gente esquece o principal e mais difícil de medir: gente.

Gente que muda de ideia. Que diz uma coisa e faz outra. Que compra pelo coração e depois inventa uma justificativa racional. Que se emociona com uma lembrança, mas ignora uma planilha. Que passa meses dizendo que quer uma coisa e anos perseguindo outra.

Entender isso é o que faz uma comunicação falar com pessoas. É o que faz alguém parar. Sentir alguma coisa. Se reconhecer. Dar risada. Se emocionar. É o que faz uma ideia atravessar o mar de informação e indiferença em que a gente vive.

Nunca tivemos tantos mapas. Nunca tivemos tantas respostas. E talvez exatamente por isso esteja ficando cada vez mais difícil encontrar as perguntas certas.

Sem elas, vamos ser como aquele vendedor de mapas esperando o farol fechar para tentar vender o relevo topográfico do Brasil. Ou o número 42.