Poliana Abritta: “Os adolescentes querem ser ouvidos”
No comando de nova série sobre adolescência no Fantástico, jornalista compartilha aprendizados da produção

A jornalista e apresentadora Poliana Abritta aborda a adolescência em série Essa Tal de Adolescência, no Fantástico (Crédito: Fábio Rocha/Globo)
Entender os adolescentes requer disposição para rever a forma como os adultos se relacionam com eles. Essa é uma das reflexões que a jornalista e apresentadora Poliana Abritta leva à série especial Essa Tal de Adolescência, que estreia neste domingo, 11 de outubro, no Fantástico, da TV Globo.
Após seis meses de gravações, conversas com especialistas e escuta de jovens, a produção investiga as transformações físicas, emocionais e comportamentais dessa fase e os desafios que elas impõem às relações familiares e sociais.
Como muitos trabalhos de Poliana, o tema parte de sua vida pessoal. Ela convive com cinco adolescentes em casa, entre seus filhos trigêmeos e enteados. A experiência se soma ao trabalho jornalístico em uma produção que busca aproximar ciência e cotidiano, sem perder de vista as vozes dos próprios jovens.
Em entrevista, ela fala sobre o que aprendeu durante a série, os efeitos das redes sociais na adolescência e a responsabilidade de transformar questões complexas em informação acessível para um programa de ampla audiência como o Fantástico, capaz de contribuir para a ampliação do diálogo entre gerações.
Meio & Mensagem — O que te motivou a fazer a série Essa Tal de Adolescência?
Poliana Abritta — Ano passado, fizemos uma reportagem especial sobre menopausa para o Fantástico, Essa Tal de Menopausa, ideia que nasceu da minha própria vivência. Construímos um formato em que, a partir da ciência, abordamos o comportamento e as transformações da fase. Usamos o trabalho de uma artista plástica, a Catharina Suleiman, para traduzir essas questões mais áridas da ciência. O projeto deu supercerto.
Depois, fiquei com a sensação de que poderíamos abordar outros temas no mesmo formato, e funcionou. Entre os trabalhos que já fiz, muitos deles dialogam com minhas próprias vivências. Também para o Fantástico, em 2018 fiz a série Fertilidade – Um Projeto de Vida, sobre fertilidade, com personagens que queriam viver a maternidade e a paternidade, mas tinham dificuldades para engravidar. Uma vez que falei de fertilidade [Poliana engravidou de trigêmeos por meio de fertilização in vitro] e menopausa, olhei para dentro da minha própria realidade, recheada de adolescentes. A adolescência era, então, um tema que eu já explorava e estudava por uma questão pessoal. Propus a pauta para a equipe que fez a série sobre menopausa. Todo mundo adorou e nos voltamos para esse assunto desde então.
M&M — Qual é a proposta da série?
Poliana — Estamos gravando a série há seis meses. A ideia é fazer uma investigação sobre a adolescência sob diversos ângulos. Temos desde a definição do que é adolescência e de quando ela efetivamente começa como o que acontece no cérebro da criança que, quando entra nessa fase, tem muitas alterações. Há uma mudança comportamental, dentro de casa, que deixa os pais atônitos, mas existe uma explicação científica para isso. No primeiro episódio, participo de um experimento com uma neurocientista, que faz uma ressonância no meu cérebro e no de uma adolescente para mostrar o que é diferente.
Assim como a menopausa, esse tema precisa ser acessado por todas as famílias. Muitas pessoas interessadas pelo assunto têm conhecimento sobre a questão do córtex pré-frontal, por exemplo, que ainda está em desenvolvimento na adolescência. Mas, quando olhamos para o público do Fantástico, precisamos entender que damos acesso a essa explicação para materializar o que muitos brasileiros percebem de forma concreta e intuitiva em casa. Por isso, conversamos com muitos especialistas de diferentes áreas.
M&M — Você costuma fazer parcerias artísticas em alguns dos seus trabalhos. Pode falar um pouco sobre o artista desta série?
Poliana — Fizemos parceria com Fabiano Senk, do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Ele tem um trabalho lindíssimo, onde transforma os olhos em portas. Isso dialoga muito com a maneira como o outro te vê e como você vê o outro, mas também com o que você guarda dentro de si. Fiz esse convite porque entendi que poderíamos, pela arte dele, traduzir esta fase da vida, pois o adolescente está aberto ao mundo, mas também se fecha no próprio universo. O Fabiano topou e fez toda a parte da arte gráfica da série, que trabalhamos em vários momentos.
Os pais se sentem perdidos nessa fase, porque não sabem como acessar os adolescentes. Por mais que a gente tenha a sensação de que o adolescente é fechado, eles querem falar e têm muito a dizer. Então, eles conversam comigo ao longo da série e sempre carrego uma janela feita pelo Fabiano. É através dela que eles falam. Para mim, a arte e o jornalismo fazem uma aliança muito poderosa. Sempre que faço um trabalho e acho que cabe essa parceria, vou atrás disso.
M&M — Você tem filhos e enteados adolescentes. Depois da produção da série, você descobriu algo que mudou sua percepção sobre a adolescência?
Poliana — Há uma metáfora muito comum entre os especialistas em adolescência. Eles dizem que, quando seu filho é uma criança, é como se você tivesse um cachorro em casa. Você chega e ele brinca, abana o rabinho, quer estar com você, faz festa. Conforme ele entra na adolescência, vai se tornando um gato. Então, você até consegue fazer um carinho ou outro, mas quando ele quer, e se quiser. Fora isso, é cada um num canto. E a ideia é que não dá para criar um gato como se fosse um cachorro. Quando ouvi essa analogia pela primeira vez, fez-se a luz para mim. Tenho cinco adolescentes em casa. Meus trigêmeos, com 18 anos, e minhas enteadas, gêmeas, com 17. Tenho ainda outro enteado que está entrando na adolescência.
Também teve a questão de como conversar, abordar e ouvir o adolescente. Pais e mães, muitas vezes, fazem uma pergunta, mas antes mesmo de ouvir a resposta, já falam de volta. É natural que a gente tenha ansiedade de ensinar, mas é preciso olhar para isso. Eu já tinha uma visão sobre como tentar escutar em casa, mas acho que, com a série, isso se consolidou. Também passei a ter mais calma, porque entendi o que se passa melhor ali. O diálogo dentro da minha casa melhorou depois da série. Estou mais conectada com eles.
M&M — O que você vê de mudança na adolescência de hoje em comparação à adolescência que teve?
Poliana — A série tenta mostrar que a adolescência sempre vai ser “a adolescência”, uma fase da vida de mudança que requer calma e adaptação. Mas ser adolescente nos dias de hoje está mais difícil do que era antigamente. Há uma questão básica de autoestima, das mudanças no corpo, da comparação. Mas, antes, a comparação vinha pelas revistas de adolescente, onde você via corpos e rostos que queria ter, porque é um momento em que o corpo muda e você não obrigatoriamente se reconhece dentro daquela figura que passa a ser e que ainda está em transformação. Mas, hoje, com as redes sociais, isso se potencializa. E os adolescentes, em especial as meninas, falam abertamente que a comparação e a autocobrança são os maiores danos das redes sociais para elas. Quer dizer, há uma opressão que elas mesmas reconhecem.
Algo interessante também é que o adolescente pontua espontaneamente a pandemia. A aula online, por exemplo, agravou muito as coisas. Obrigamos jovens, na fase da vida em que estão altamente inseguros com a própria imagem, a ficarem de câmera aberta por quatro horas seguidas, como se estivessem na frente do espelho. Talvez não houvesse outro jeito, mas não podemos ignorar o efeito colateral disso.
M&M – No Fantástico, você fala com milhões de brasileiros. Como transformar assuntos complexos em narrativas para um público amplo sem simplificar demais?
Poliana – No fundo, busco temas que são urgentes, instigantes e que estão na casa de todo mundo, não interessa a realidade socioeconômica. São pautas que falam com a família. Quando você aborda a adolescência, existem várias camadas e a desigualdade provoca outras questões. Mas a explicação básica do cachorro e do gato, por exemplo, atende a todo mundo. Então, temas como esse têm uma linguagem que atravessa classes sociais e condições financeiras. É uníssono, pois representa um drama familiar e uma preocupação dos pais e dos adolescentes. Nós, na qualidade de adultos, entre pais, mães e até jornalistas, temos a função primária de escutar, e existe uma voz querendo falar. Eu apenas transformo essa voz num produto, como a série.
M&M– Depois da produção da série, você chegou a alguma conclusão sobre o que os adolescentes falam hoje que a sociedade não tem escutado?
Poliana — Olha, não consigo dizer isso genericamente. O que consigo falar é que, independentemente do que eles estejam falando, nos diferentes interesses deles, eles querem ser ouvidos. Tenho um exemplo que se tornou um exercício na minha casa. Nem sempre as músicas que meus filhos e enteados ouvem me agradam. Mas, por que quando eles eram crianças, eu sentava para ouvir Backyardigans [O Jardim dos Amigos] e cantava as musiquinhas com eles por horas, e quando eles se tornaram adolescentes, a tendência é criticar a música que ouvem? Quando o filho vira adolescente, achamos que devemos dar menos valor aos interesses deles. Mas eles estão descobrindo o mundo tanto como quando eram crianças. Se você sempre criticar os interesses deles, eles vão se fechar para você, porque você vai virar um crítico. Então, por que não sentar no chão, metaforicamente falando, para ver o que ele está ouvindo e assistindo agora? Um adolescente isolado e sozinho vai caminhar por mundos nas redes sociais que vão acolhê-lo. Mas que mundo é esse e o que vai oferecer a ele?
Para mim, eles estão querendo falar que a gente não está escutando. Eles querem dizer: “me olhem. Escutem o que quero dizer. Me valorizem. Deem interesse”. A Carolina Delboni, especialista e pesquisadora da adolescência, fala algo sensacional na série. Ela diz que temos a mania de soltar a mão do adolescente para dar autonomia, mas precisamos equilibrá-la com proteção. Temos que soltar a mão, mas deixar pelo menos um dedo, porque não está na hora de soltar tudo.