Equidade

Publicitária cria site que mede gap salarial em agências

Criada pela redatora Caroline Hikari, Mad Money faz medição diária de salários em agências pelo mundo

i 14 de outubro de 2026 - 6h00

disparidade salarial de gênero

Plataforma Mad Money quer propor uma mudança no mercado publicitário (Crédito: Ink Drop/AdobeStock)

As mulheres recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado no Brasil, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Essa disparidade salarial de gênero, no entanto, não é uma realidade exclusiva do Brasil. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que, em todo o mundo, as mulheres ainda ganham, em média, cerca de 18% menos do que os homens.

No mercado publicitário, apesar de a participação das mulheres na área de criação ter aumentado de 27% para 41%, elas ainda são minoria, de acordo com o estudo recente da Pride Content, elaborado a partir de microdados da RAIS/PDET. Além disso, a pesquisa mostra que, no grupo dos 10% com maiores salários, os homens recebem de 8,7% a 18,6% mais do que as mulheres e que nas agências de São Paulo, a média salarial dos homens na publicidade é 20,9% superior à das mulheres.

Disposta a escancarar e mudar essa realidade, Caroline Hikari Mino, redatora da Publicis Japão, publicitária com cerca de dez anos na profissão, criou Mad Money, plataforma cujo objetivo é monitorar e ajudar a combater a diferença salarial de gênero na indústria publicitária ao redor do mundo.

A iniciativa nasceu da frustração pessoal de Caroline com a escassez de mulheres em cargos de liderança na publicidade e a persistente desigualdade de remuneração, observada após experiências no Brasil e no Japão. “Demorou muito para eu ter uma (chefe) diretora criativa mulher. Fui ter depois de quase cincos anos de carreira. Ver essa falta de espaço vai frustrando”, relata.

Além da falta de apoio de lideranças masculinas ao longo de sua carreira, o endosso de alguns homens à manutenção dessa disparidade também impulsionou Caroline a tirar sua ideia do papel. “Tive uma conversa com um chefe meu e ele me falou que mulher precisava ganhar menos do que homem”, relembra. “Usar esse ódio como combustível para fazer alguma coisa foi como eu consegui canalizar minha energia”, conta.

Caroline destaca que, de uns anos para cá, a indústria já vinha notando o problema e buscando iniciativas para contorná-lo, a exemplo do programa See It Be It, do Cannes Lions. “Precisamos proteger iniciativas para ter mais mulheres ocupando essas cadeiras, mas ao mesmo tempo não adianta ficarmos tapando buraco, o sistema precisa mudar”, afirma.

Como funciona o Mad Money?

O site do Mad Money oferece um rastreador interativo atualizado diariamente, que compara quanto as mulheres ganham por cada dólar pago aos homens. Ao todo, foram utilizados 365 índices diferentes, que não só comparam a disparidade salarial, mas índices monetários. “Não foi possível conseguir todos (os índices) de 2026. Tem alguns que são um pouco mais antigos, mas é para passar essa ideia de que isso sempre existiu, sempre esteve e ainda está aqui”, complementa.

Além desse rastreador interativo atualizado diariamente, a plataforma conta ainda com dados específicos sobre a disparidade salarial de gênero de 28 cidades, incluindo os principais hubs globais de publicidade, como São Paulo, Londres e Nova York. “Queria conseguir os dados de mais lugares para ter um comparativo maior, mas infelizmente não consegui. Mas com isso dá para passar uma ideia”, diz.

Sempre que obteve informações mais detalhadas sobre uma cidade, Caroline as incluiu na plataforma. A única exceção foi a China, onde não encontrou dados específicos do mercado publicitário, por isso, a ferramenta apresenta dados gerais de disparidade salarial de gênero do país.

Além de expor essa realidade com dados específicos e gerais, o Mad Money permite que o funcionário envie e-mails anônimos aos RHs das empresas, por meio da própria plataforma, para iniciar discussões sobre a questão. A criadora espera que a ferramenta sirva como um catalisador para a mudança, transformando a indignação em ação concreta contra o problema sistêmico da desigualdade.

“Claro que o problema é muito mais embaixo, é muito mais complexo do que isso, não vou mudar o mundo, mas é um começo de conversa. Se isso ajudar de alguma forma ou fizer diferença de alguma forma, uma cadeira que seja, para mim, já é muito”, declara.