Acepto, pero no mucho!
Estive no Peru, graças a Deus antes do terremoto, mas pude comprovar, na prática, outra rachadura bem profunda, na indústria dos cartões de crédito. Nos últimos 25 anos, me acostumei a escrever e ler a frase “aceito no Brasil e em milhões de estabelecimento em todo o mundo”, introjetando isso como verdade. Mas, o fato é que existe um desafio tremendo para colocar todo esse mundão na mesma página. Nem as facilidades digitais estão conseguindo driblar as artimanhas de tentar escapar das taxas. Sempre as taxas…
Enfim, no Peru, os “malabares” para impedir você de pagar com cartão estão realmente presentes nos pontos mais turísticos. Em Águas Calientes, parada obrigatória para quem vai a Machu Pichu, até o órgão oficial do turismo que vende os ingressos aos turistas não estimula o uso do plástico. Na boca do caixa, o encarregado me perguntou: “Pago en efectivo, si?” E quando eu disse que não, ele teve que entrar no escritório para pedir uma ordem para eu pagar com o cartão, apesar do guichê estar plenamente sinalizado com as bandeiras.
O outro aplique comum nos restaurantes é pagar uma sobretaxa, por conta de usar o cartão, meio como aconteceu com o Brasil nos anos 80, em que o preço era diferente para cartão e outros meios de pagamento. No entanto, no Peru os overprices praticados são escandalosos, variando de 7 a 10%, depois que você já pagou o serviço! Em todos os restaurantes, bastou eu dizer que a prática era ilegal para não pagar (fica a dica…). Mas a maioria não bate o pé, é lesada e acaba pagando.
Outro ícone nacional do orgulho peruano, o Museu D’Oro, em que está exibido o tesouro não saqueado pelos espanhóis, pertence a uma fundação particular e também não aceita cartão em sua bilheteria! Outra pegadinha comum para quem está fazendo seu window shopping ingenuamente é a sinalização nas lojas. Você entra, escolhe seus regalitos e na hora de pagar, surpresa, a loja não aceita cartão, porque “esqueceram” de tirar o adesivo da vitrine, ou a máquina não está funcionando, etc. Assim dançou minha garrafinha de pisco artesanal…
O fato é que ainda falta muito azeite na triangulação emissor, adquirente e bandeira. Fiquei pensando no imenso desafio que é cumprir a tal frase “aceito em…” que escrevemos sem pensar e eu, pelo menos, há mais de duas décadas. O desafio de aculturamento do comércio é muito maior do que o de credenciamento em si. Especialmente para o turista, tem um papel fundamental na percepção positiva de um país. Afinal, essas pequenas maracutagens acabam atrapalhando sua viagem 5, 6, 7 vezes ao dia, acabam por irritar e, pior, mancham a reputação do país.
Claro que eu fiz um paralelo com o Brasil em 2014, com os milhares de novos estabelecimentos que vão surgir, com muitos oportunistas ou despreparados entre eles, e na possibilidade dessas manobras ao estilo “acepto, pero no mucho” serem praticadas por aqui. Como participante dessa indústria, fica minha humilde sugestão: gestão de relacionamento com o trade também deve estar na pauta do dia do novo Brasil nos próximos anos!
Marisa Furtado é sócia, vice-presidente e diretora de criação da Fábrica Comunicação Dirigida