Quando o sarcasmo é levado a sério
Alguém me contou – nem sei se é verdade – que durante uma internação do João Gilberto numa clínica, ele foi abordado pela enfermeira enquanto observava algo pela janela. “João, o que você está fazendo?”, ela perguntou. “Estou olhando o vento descabelar as árvores.” A enfermeira, assustada com o que ouviu, fez questão de avisá-lo: “Mas João, as árvores não têm cabelo”. Ele sorriu levemente e concluiu: “E algumas pessoas não têm poesia”.
O sarcasmo de alguns comentários não significa necessariamente uma agressão ao interlocutor, muitas vezes se trata apenas de uma piada com um toque de malícia. Uma malícia até juvenil.
Cleber Machado, o melhor locutor da Rede Globo na minha opinião (e aqui não tem sarcasmo), faz comentários durante as transmissões que contrariam o que você está vendo. Exemplo: um jogador bate uma falta no ângulo e marca um golaço. Ele cutuca o Casagrande: “Tá chutando mal o fulano (nome do jogador), Casagrande?”. É óbvio que naquele momento o Cleber acha o cara um exímio batedor de faltas, mas prefere o sarcasmo do que o elogio seco.
Ainda hoje entendo que o brasileiro muitas vezes não simpatiza com o sarcasmo. Mas isso acontece não porque não goste, mas sim porque muitas vezes não entendemos o sentido da brincadeira. Numa pesquisa recente, o Brasil apresenta 73% de analfabetismo funcional. Num país com uma taxa tão alta, é natural que o tiro de uma boa piada ou comentário possa sair pela culatra.
Uma pena, porque passamos a ser mais sisudos quando acreditamos que aquele leve comentário se trata de uma agressão verbal pessoal, e não de um jeito novo de aprender a interpretar a mesma situação por um ângulo diferente.
PS: se você gostou do texto, indique para os amigos. Se não gostou, indique para os inimigos (mais um delicioso sarcasmo, que a cada dia corre mais riscos de processos).
Hugo Rodrigues é Chief Operating Officer e Chief Creative Officer das agências Publicis Brasil, Salles Chemistri e Publicis Dialog