Como você está construindo sua marca?
Uma boa narrativa pode ampliar uma percepção, mas não consegue sustentar por muito tempo aquilo que a experiência contradiz
Durante muito tempo, falar de marca pessoal parecia assunto de influenciadores, enquanto construir uma marca empresarial parecia responsabilidade exclusiva do marketing. Essas duas ideias ficaram para trás.
Empresas e pessoas constroem suas marcas continuamente, inclusive quando não estão pensando sobre isso. Marca é percepção, e ela não nasce apenas do que escolhemos dizer sobre nós mesmos, mas das experiências que proporcionamos e das evidências que acumulamos ao longo do tempo.
Nas empresas, essa percepção se forma na maneira como um cliente é atendido, um produto é desenvolvido, um problema é resolvido, uma reunião é conduzida ou uma decisão é tomada. Com as pessoas, acontece o mesmo: comportamento, escolhas, relações, forma de se comunicar e até os projetos aos quais alguém se associa ajudam a construir reputação.
Nenhum desses elementos, isoladamente, define uma marca. É a soma deles que forma uma percepção, e essa percepção tem impacto concreto nos negócios.
O Edelman Trust Barometer 2026 mostra que, no Brasil, 91% dos entrevistados consideram a confiança em uma marca um critério importante ou decisivo na hora da compra, praticamente no mesmo patamar da qualidade do produto, citada por 92%, e do atendimento de alta qualidade, mencionado por 94%. Já uma pesquisa da PwC divulgada em 2025 apontou que 52% dos consumidores nos Estados Unidos deixaram de comprar ou utilizar uma marca após uma experiência ruim com seus produtos ou serviços.
Os dados reforçam que confiança não é construída apenas por campanhas ou discursos. Ela depende da coerência entre aquilo que uma marca promete e o que entrega na prática.
Foi observando essa dinâmica ao longo da minha carreira que passei a enxergar a marca menos como uma camada colocada sobre o negócio e mais como uma consequência dele. As marcas mais consistentes que ajudei a construir não começaram por uma campanha, mas por decisões estratégicas sobre cultura, proposta de valor, posicionamento, produto, pessoas e experiência.
A lógica que passei a aplicar nas empresas que lidero e acompanho parte da cultura, avança para proposta de valor e posicionamento e, só então, chega à identidade e à
experiência da marca. O desafio está em fazer com que todos esses elementos contem a mesma história.
Uma empresa pode se dizer inovadora, mas processos burocráticos comunicam o contrário. Pode afirmar que coloca o cliente no centro, mas um atendimento ruim terá mais força do que qualquer campanha. Uma boa narrativa pode ampliar uma percepção, mas não consegue sustentar por muito tempo aquilo que a experiência contradiz.
Por isso, o marketing pode liderar e orquestrar a marca, mas não a constrói sozinho. Produto, atendimento, tecnologia, processos, cultura e pessoas participam diretamente desse processo. Em um ambiente com mais pontos de contato, exposição e velocidade, liderar marketing exige compreender essas diferentes dimensões e conectá-las.
Foi justamente ao aplicar essa lógica às empresas que percebi que deveria fazer o mesmo com minha própria trajetória. Durante muito tempo, acreditei que os resultados do meu trabalho seriam suficientes para construir minha reputação. Depois entendi que competência é a base, mas nem sempre torna claro para o mercado quem é aquele profissional, o que representa e pelo que deseja ser reconhecido.
Passei então a olhar com mais intenção para os temas aos quais queria estar associada, os espaços que desejava ocupar, os projetos e pessoas com quem me relacionava e a consistência entre aquilo que fazia, comunicava e queria representar.
Vieram novas conexões, convites, oportunidades e negócios. Não porque eu tivesse me tornado uma profissional diferente, mas porque o mercado passou a enxergar com mais clareza algo que já existia.
A lógica é a mesma para empresas e pessoas: a marca não é aquilo que se diz ser, mas a soma das evidências que leva os outros a formar uma percepção. Quando cultura, estratégia, posicionamento, comportamento e experiência apontam na mesma direção, essa percepção ganha consistência, transforma-se em reputação e gera confiança.
Em mercados nos quais produtos, serviços e competências estão cada vez mais parecidos, essa confiança pode se tornar uma vantagem competitiva. Para executivos, isso ganha ainda mais relevância, porque a reputação de quem lidera está cada vez mais conectada à percepção sobre a própria organização.
Marca pessoal, portanto, não é sinônimo de exposição. É clareza, intenção e consistência. A marca já está sendo construída todos os dias; o que muda é a capacidade de conduzir esse processo de forma consciente e coerente com o futuro que se deseja construir