Por que esse artigo não foi escrito com IA
Briefings cuspidos de um prompt geram ideias vomitadas de outros para cumprir prazos e verbas raquíticas — e o resultado não poderia ser mais modorrento
Simplesmente porque escrever é um prazer, e reprimir prazer tira o sal da vida. Mas quem não gosta de escrever não precisa.
Está tudo bem, não sentiremos falta, e o mundo não vai acabar se quem já não escrevia antes das inteligências artificiais continuar sem escrever. Podem cantar, pintar, ganhar dinheiro, como faziam antes e, esporadicamente, ler o que escrevem aqueles que gostam. E vamos deixar as inteligências artificiais fazerem o que sabem fazer — que não é escrever (travessões não foram inventados pelas IAs) —: corrigir talvez, pesquisar também, perorar e bajular com certeza.
Como dizia Graciliano Ramos, deveríamos escrever “da mesma maneira que as lavadeiras lá de Alagoas […]. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa […] torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer”. Segue-se uma cuidadosa descrição do ofício das lavadeiras. “Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.
Torcer, esticar, retorcer, alisar, espremer, abrir, torquear, reesticar não é para preencher postagens que ninguém lê nem para posar de sabido para quem ninguém liga; talvez seja o que nos resta de humanidade num mundo de plástico e bits.
Esse longo prólogo era para falar dos ofícios que ainda carecem de fogo criativo. Por exemplo, a propaganda.
Uma certa monotonia tem contaminado tudo num círculo vicioso embrutecedor. É mais ou menos assim: briefings cuspidos de um prompt geram ideias vomitadas de outros para cumprir prazos e verbas raquíticas. O resultado não poderia ser mais modorrento, e pouco importa aqui achar culpados — se os prazos, se as verbas, se as preguiças —, importa o resultado ou a falta dele.
Em fóruns criativos, o craft foi eleito como antídoto à alienação decorrente do uso de ferramentas de IA em substituição às de massa cinzenta e glóbulos. Mas a gente tem uma palavra, só nossa, muito mais bonitinha para levantar a bandeira da resistência à padronização vil.
Craft significa feito à mão por quem sabe fazer. Craft significa perícia manual, logo, humana.
Mas que tal falarmos de capricho em vez de craft? Capricho significa cuidado, acabamento, tempo, carinho, tudo junto. Caprichar é torcer, retorcer, torquear, espremer, apalpar, amolengar, chamegar até chegar.
Falta craft porque falta conhecimento do ofício, mas conhecimento do ofício exige capricho.
Capricho não tem nada a ver com IA. Caprichar tem a ver com não gostar da primeira ideia, do primeiro gesto, do primeiro traço. Caprichar quer dizer ter tempo para olhar, dormir, olhar de novo. Caprichar quer dizer não economizar com besteira, nem tempo nem dinheiro. Caprichar significa não gostar do que as IAs regurgitam e regurgitam só porque parece ok, passável, arrumadinho. E, principalmente, caprichar significa apaixonar-se pelo resultado. E só dá para gostar daquilo que sai das nossas próprias tripas e corações.
Esse artigo foi escrito sem IA porque eu gostei de escrever e espero agradar alguns e inspirar outros a também colocarem mais capricho nos seus trabalhos, nas suas relações e nas suas vidas.
Capricho ergo sum.