OPINIÃO: AGATHA KIM

A última a ir embora, acenda as luzes

Diante do cenário atual, é inevitável oscilar entre a incredulidade e o desalento, mas é possível mudar

Agatha Kim

Estrategista de marca e co-fundadora da Aigo 5 de outubro de 2026 - 14h33

Todo mundo tem uma inimiga do fim na turma. Aquela pessoa que, como o coelhinho da Duracell, sempre tem energia pra mais uma aventura. Eu não sou uma delas. Kelly, uma das minhas melhores amigas, me fez passar uma semana no carnaval de rua de São Luiz do Paraitinga, com uma intensa programação oficial que envolvia blocos das dez da manhã às dez da noite.

Maurilio, com quem tive a sorte de trabalhar duas vezes, não apenas é o companheiro de bar mais constante de metade da agência, como emenda programas depois dos programas. Um samba ou karaokê é considerado uma progressão natural após um show de três horas.

Uma verdadeira inimiga do fim te obriga a estar em lugares que você não sabia que precisava experienciar e te coloca em situações que abrem pequenas frestas nas rotinas controladas, exaustivas e frequentemente, inertes, como as que vivemos em grandes cidades. É bom ter por perto gente que faz tudo para evitar que a festa acabe.

Hoje, a grande festa que todo mundo parece querer fazer parte é a das máquinas. Inteligência artificial são duas palavras presentes nos relatórios de todas as empresas, nos planos de todos os profissionais e nos artigos de todos os jornais de prestígio.

Mas se você está prestando atenção nas notícias sobre inteligência artificial, deve ter reparado que, recentemente, os especialistas da área não apenas deram um número para a probabilidade da extinção da humanidade acontecer (10%), como também um prazo (até uma década).

Ainda que esses números redondos levantem suspeitas, tem gente séria preocupada com os rumos da superinteligência, e sobretudo, com a falta de regulamentação dessa tecnologia. Mais de 1.300 líderes e funcionários que trabalham com IA assinaram uma carta aberta instando o governo dos Estados Unidos a regular o ritmo de avanço da tecnologia.

Fico pensando quem são as inimigas do nosso fim e o que estão fazendo para evitar que ele se materialize.

Diante desse cenário, é inevitável oscilar entre a incredulidade e o desalento, emoções que nos empurram para a imobilidade. Afinal, se frequentemente é difícil chegar ao final do mês, quanto mais pensar no futuro da humanidade.

Falta imaginação para nos fazer inventar novas histórias capazes de nos tirar desse feitiço.

Pelo menos, essa é parte do diagnóstico do professor e pesquisador em semiótica e comunicação Paolo Demuru, que em “Políticas do encanto” convida a repensar os usos das plataformas digitais que desaguem em estratégias de reencantamento.

Reencantamento porque o maravilhamento hoje parece estar nessas narrativas de horror e ameaça, “a mesma que se prova perante os eventos naturais tremendos e ameaçadores como furacões, vulcões em erupção, mares tempestuosos”.

Ainda que o livro esteja se referindo à luta política, há trechos que me parecem ser relevantes em outros contextos, sobretudo quando Demuru escreve sobre encantamento.

O óbvio precisa ser dito e repetido. É como nos sentimos sobre algo que nos faz mudar de ideia ou de comportamento. “Não adianta apenas citar fatos e dados. Se queremos mudar a realidade, precisamos mudar os trilhos da imaginação social, reconquistar a fantasia, inventar e semear outras histórias.”

E a maneira como estamos sendo expostas às narrativas, isoladas em dispositivos individuais que apenas reforçam o que já sabemos, não é capaz de quebrar essa inércia.

Estamos em um momento com muitas perguntas e poucas soluções. Mas “Políticas do encanto” arrisca algumas táticas que tenho tentado abraçar: reunir-me em torno das paixões, voltar a me entusiasmar pelo fazer, lutar pelo prazer e com prazer, reconquistar o humor. Sobretudo, “a maravilha, a alegria coletiva e a festa (que) nos liberam da imobilidade, nos abrem para a multiplicidade, criam novas conexões e sentidos. Nos transformam”.

Quando leio sobre essas estratégias de reencantamento, não deixo de pensar nas minhas inimigas do fim. Gente que pleiteia o encanto, sempre, e em todo o lugar. No convite para um encontro, para um samba, para sair na rua sem planos. Se elas não forem capazes de inspirar o fim do feitiço, que sigam encantadas e encantando.