Bets afetam orçamento de 89% dos apostadores no País
Estudo da Talk Inc, com 1.800 jogadores antes da proibição, analisa impacto nas finanças e relações
Há duas semanas, o Governo Federal publicou uma Medida Provisória que proíbe a atuação das plataformas de apostas em território brasileiro. Desde então, as entidades ligadas ao setor tentam suspender a decisão com ações no Supremo Tribunal Federal.

(Crédito: Seventyfour-adobestockcom)
Em paralelo, o calendário de devolução aos apostadores dos valores disponíveis nas plataformas avançou. Na segunda-feira, 5, foi encerrado o prazo de resgate voluntário e, no dia seguinte, os sites e aplicativos de bets saíram do ar.
Agora, entre 9 e 14 de outubro, os usuários que ainda não fizeram a retirada do saldo poderão solicitar os valores disponíveis através dos bancos. No total, as bets ainda devem devolver R$ 1,3 bilhão para cerca de 26,5 milhões de apostadores. Além disso, 188 sites legalizados até a assinatura da MP tiveram sua autorização cancelada e 13.241 sites ilegais foram encaminhados para bloqueio.
Mas, antes da proibição das plataformas, o estudo “Os Muitos Lados das Bets”, da Talk Inc, investigou o impacto das bets nas finanças, nas relações e na rotina de quem aposta. Ao todo, a pesquisa ouviu 1.800 apostadores em todo o Brasil e 330 familiares de pessoas que apostam, além de uma etapa qualitativa com entrevistas e grupos.
Um dos recursos usados pelo estudo foi o Problem Gambling Severity Index (PGSI), mecanismo de avaliação que mede a gravidade do comportamento dos apostadores. Segundo os critérios do PGSI, 43% das pessoas ouvidas pela pesquisa estariam classificadas como em “alto risco”.
Entre os principais achados do estudo, estaria o descompasso entre a percepção de controle dos apostadores e o que a pesquisa mede a partir de perguntas indiretas. Apesar de 43% serem qualificados como em alto risco, quase metade desse grupo descreve a própria situação como controlada e equilibrada.
Ao mesmo tempo, 89% dos apostadores afirmam já ter deixado de poupar, pagar contas ou comprar comida em razão das apostas no último ano.
A entrada nas plataformas
O estudo também investigou como os usuários começaram a apostar. Entre os gatilhos mais citados, estão o bônus de cadastro (39%), a curiosidade (36%), a publicidade nas redes sociais (29%), e a indicação de amigos (26%).
A família é impactada por essa dinâmica. Para 35% dos apostadores, a família é apontada como quem ajuda quando problemas financeiros começam a acontecer.
Além disso, 47% dizem esconder o quanto apostam, 39% já mentiram sobre o destino do dinheiro e 51% já ouviram de alguém próximo um pedido para parar ou diminuir.
“Também nos chama bastante a atenção como a virtualização do dinheiro faz com que as pessoas percam a noção de valores. É algo que se estuda em outros campos e isso aparece em depoimentos como o de entrevistados que falam ‘perdi a noção do valor do dinheiro’”, aponta Carla Mayumi, sócia e estrategista cultural da Talk Inc.
Impacto da MP das Bets
A estrategista pontua que a proibição das bets encerra a oferta, mas não as obrigações financeiras na vida dos apostadores. No estudo, quase um terço dos apostadores afirmaram ter dívidas ligadas a apostas e 15% dos endividados recorreram a agiotas.
O estudo também registrou uma mobilidade entre plataformas. Metade dos entrevistados (51%) troca de casa quando acredita que outra está pagando mais, 42% usam grupos no WhatsApp ou Telegram para decidir onde jogar e apenas 25% disseram apostar exclusivamente em bets legalizadas.
“Esses comportamentos existiam antes da MP e indicam que parte dos apostadores já sabe circular fora do mercado regulado. Nas entrevistas, as ‘casas chinesas’ aparecem justamente como alternativa que paga mais, não cobra imposto e escapa da autoexclusão pelo Gov.br”, aponta Mayumi.
A pesquisa também traz achados sobre a percepção dos usuários sobre confiança e controle. 59% dos entrevistados acreditam que as plataformas manipulam os resultados de roletas e slots. Porém, 46% afirmam ter “aprendido macetes” com o tempo e 42% acreditam que, quanto mais estudam o jogo, maiores as chances de ganhar.
“Nas entrevistas, muitos separam a aposta esportiva, vista como um jogo de habilidade, do cassino e dos slots, vistos como sorte ou fraude, e usam essa separação para justificar a própria prática”, explica a sócia da Talk Inc.
Apostas e o orçamento doméstico
Com relação ao orçamento doméstico, os apostadores contam que o dinheiro ganho nas plataformas é direcionado para compras do dia a dia (24%), contas e boletos (21%) e pagamento de dívidas (14%).
Além disso, 37% usam o que estudo descreve como “fonte delicada” para apostar, como pix no crédito, poupança, empréstimos ou dinheiro reservado para contas básicas. Esse fenômeno não se limita a uma faixa de renda específica.
Segundo o levantamento, a classe A, por exemplo, apresenta proporções mais altas que a média dos entrevistados no uso dessas fontes arriscadas, como o dinheiro reservado para necessidades básicas e o pix no crédito. O estudo completo será apresentado em um webinar no dia 20 de outubro, na plataforma da Talk Inc.

