Só discute liderança quem não tem líder
Não é de hoje que liderança é um dos assuntos que gera mais livros e palestras. Curiosamente, as melhores empresas não gastam tempo discutindo isso. Talvez porque não precisem. Pode perguntar para qualquer consultor. O seu público-alvo não são as empresas bem administradas, mas sim aquelas que ainda não se encontraram
Não é de hoje que liderança é um dos assuntos que gera mais livros e palestras. Curiosamente, as melhores empresas não gastam tempo discutindo isso. Talvez porque não precisem. Pode perguntar para qualquer consultor. O seu público-alvo não são as empresas bem administradas, mas sim aquelas que ainda não se encontraram.
Eu classifico os líderes usando duas variáveis: quanto ele (ou ela) é respeitado por sua competência e quanto as pessoas em suas equipes gostam dele (ou dela).
O primeiro grupo é dos legais incompetentes. Certamente você tem muitos assim na sua empresa. Falam com todo mundo, vão aos happy hours, jogam futebol com os estagiários e estão sempre de bom humor. Mas no trabalho as coisas se complicam. Por falta de conhecimento ou capacidade de tomar decisões e definir o caminho para suas equipes, deixa todo mundo na mão. Um ótimo amigo para um chope mas um péssimo chefe.
O segundo é dos competentes que todos odeiam. Estes geralmente agradam os chefes mais do que as equipes porque entregam os resultados. Acreditam que deixar alguns corpos espalhados no caminho é uma consequência natural do trabalho. Apesar de grande conhecimento técnico, são incapazes de se relacionar de forma produtiva com as equipes e pares. Todos o respeitam por sua inteligência mas nunca o convidariam para o churrasco no fim de semana.
O terceiro e mais complicado grupo são os incompetentes odiados. Fora relações pessoais com o chefe, ainda não entendo como estas figuras sobrevivem por anos nas empresas. O dia que são demitidos (ou, mais frequentemente, expatriados ou promovidos para uma outra divisão da empresa) todos saem para comemorar como se fosse a assinatura da Lei Áurea.
O último grupo é o único que trás esperança para executivos mundo afora: os competentes que todos gostam. Esta espécie rara conjuga um talento especial para construir relacionamentos e amizades ao mesmo tempo que são excelentes no que fazem. As pessoas reconhecem e querem trabalhar com ele (ou ela). Independente da senioridade, exercem influência e têm liderança sobre outras áreas e pessoas mesmo sem nenhuma relação funcional com a sua.
Eu tive a sorte de trabalhar com algumas pessoas assim. Elas fizeram muita diferença na minha carreira e na minha vontade de ir para o escritório todos os dias.
Há alguns anos quando eu trabalhava em Atlanta na matriz da Coca-Cola assisti uma pessoa assim começar um projeto praticamente sozinho e em pouco tempo mudar o futuro da empresa toda.
Tudo começou com uns pôsteres escritos à mão apresentados dezenas de vezes nos quais contava a história de como reviver a marca Coca-Cola, um ícone da cultura global que havia perdido seu rumo. A apresentação tinha o título de Manifesto para Ressuscitar um Ícone (uma tradução mal feita do nome original “Manifesto for the Revival of an Icon”).
O manifesto não só contagiou a comunidade de marketing como virou tema da reviravolta que a Coca-Cola passou no início dos anos 2000. O projeto foi endossado pelo então CEO que acabou batizando o processo de reengenharia da Coca-Cola com o mesmo nome.
As pessoas seguiam este líder de forma cega. Todos queriam trabalhar com ele mesmo que fosse de forma indireta. Suas reuniões estavam sempre cheias e tudo o que ele fazia tinha apoio imediato na matriz e nos países. Foi uma das melhore épocas em muitos anos.
Mas se pessoas assim aparecem nas empresas, por que elas não acabam nos cargos de liderança com mais frequência?
Há muitas razões, mas a mais frequente é política. Líderes queridos e visíveis não agradam a todos. Especialmente a seus concorrentes diretos. Ou mesmo aos seus chefes que os veem como concorrência, não como uma ferramenta para atingir os seus resultados. Afinal, nem sempre o bem coletivo está acima do bem pessoal.
Se você encontrar alguém assim, aproveite. Eles são raros nos dias de hoje. Azar o seu e sorte do consultor daquele próximo workshop mandatório para o qual você foi intimado a comparecer.
Ricardo Fort (@SportByFort) é executivo de marketing internacional baseado em São Francisco, Califórnia
