Lucrar de joelhos não é um bom negócio
Acredito em publicidade e negócios feitos com criatividade, coragem, ética e opinião. Não gosto de quem só quer riqueza
Por Rodrigo Leão
Não dá pra saber se estão falando bem ou mal. Talvez seja um pouco dos dois. É assim ó: “Mano, você é o Paulo Francis do Meio & Mensagem!” Ou então: “eu gosto dos seus textos porque você fala mesmo o que pensa, sem medo”. Alguns recados chegam por Direct Message no Twitter: retuitar algumas das coisas que eu escrevo pode sujar a barra no RH da agência. E fico aqui matutando se sou besta de entregar minhas opiniões assim, de mão beijada. De talvez ferir ou incomodar colegas e possíveis clientes. Mas aí eu penso: não é por isso que a gente escreve? Para dar voz às nossas opiniões e assim conhecê-las melhor e aprender com as opiniões diversas que elas inspiram?
É óbvio que emitir minhas opiniões sobre o trabalho de outras agências e clientes não é confortável. É mais fácil perder amigos do que ganhar quando se está sendo opinativo. Mas acredito que ao me expor apontando a babaquice da propaganda em geral torno as chances da propaganda que eu e você fazemos ser menos babaca. Acredito em publicidade e negócios feitos com criatividade, coragem, ética e opinião. Não me ajoelho para o lucro. Ele é que se levanta para andar comigo. Não gosto de quem só quer riqueza. Gosto de quem cria valor. E não estou sozinho nessa. Tem caras muito melhores do que eu que já se ligaram.
“Nós acreditamos que negócios são bons porque criam valor; são éticos porque são baseados na troca voluntária; são nobres porque podem elevar a qualidade da nossa existência e são heroicos porque podem retirar as pessoas de sua condição de pobreza e criar prosperidade…”, dizia empolgado na minha frente John Mackey, CEO e fundador da rede Whole Foods Market. O líder da bem-sucedida rede internacional de supermercados focada em comida orgânica, ética e ecologicamente produzida, seguia em sua pregação numa palestra no festival SXSW, em Austin, no Texas, EUA, a qual eu tive a oportunidade de assistir. “O capitalismo de livre iniciativa é o sistema mais poderoso de cooperação social e progresso humano já criado. Uma das melhores ideias já concebidas. Mas é possível torná-lo algo muito melhor …” Melhor? Sim, dizia ele: “precisamos criar o capitalismo consciente”.
John Mackey estava lá no SXSW para lançar seu novo livro Conscious Capitalism: Liberating The Heroic Spirit of Business” (Capitalismo Consciente: Libertando o Espírito Heroico dos Negócios), escrito em parceria com o professor Raj Sisodia. No livro, eles apresentam o caso de empresas como Whole Foods Market, Southwest Airlines, Costco, Google, Patagonia, The Container Store e UPS, que já começam a estabelecer as práticas desse novo capitalismo utilizando de forma específica quatro fundamentos: um propósito maior para os negócios (faça a pergunta: a que causa humana positiva o seu negócio serve?); integração das partes interessadas (produtores, consumidores e fornecedores); liderança consciente e cultura de gerenciamento consciente.
O livro mostra ainda como essas empresas vêm usando esses fundamentos para construir negócios robustos e bem-sucedidos. Negócios que geram valor para todas as partes envolvidas na cadeia econômica: empregados, fornecedores, consumidores e os acionistas. Ao mesmo tempo que são influenciados por Friedrich Hayek e Milton Friedman em sua visão do livre mercado como principal motor do progresso, ao incluir todos os agentes na divisão do valor gerado, mudam tudo.
Veja como a mesma regra aplica-se à propaganda. A boa propaganda informa, diverte, encanta e acolhe porque respeita e cria valor para todas as partes envolvidas no ciclo: clientes, agências e consumidores. A propaganda ruim, retrógrada e desrespeitosa, essa que eu não me canso de chutar por aqui, representa o desequilíbrio de uma das partes: o cliente diz o que bem entende, a agência trabalha sem pensar e o consumidor acaba alienado ou bravo. Achar que a propaganda e os negócios são todos iguais é como achar que o pastor evangélico Martin Luther King é o mesmo que o pastor evangélico Marco Feliciano.
Rodrigo Leão é sócio-diretor de criação da Casa Darwin e professor dos MBA de Marketing, MBA Executivo Internacional e International MBA da FIA. Este artigo foi publicado na edição 1553 do Meio & Mensagem, de 01º de abril.
