Ponto de vista - Comunicação

Você sofre de ?importantismo??

Regularmente converso com executivos que são extremamente ocupados. Estão pressionados pela entrega do resultado do próximo trimestre, têm de se preocupar com a alocação das verbas e sabem que a mudança ocorre num ritmo maior do que eles conseguem acompanhar

i 27 de abril de 2015 - 6h04

100% dos executivos que conheço proclamam-se grandes fãs da cultura inovadora do Vale do Silício.

Não conheço absolutamente ninguém que se diga contra a inovação, o “pensar fora da caixa” e o pensamento “disruptivo”.

No entanto, na hora que a inovação deve ser transformada em prática surge uma barreira quase sempre instransponível, chamada “prioridade”.

E por prioridade traduzo: o que é importante fazer “agora”, o que pode esperar “um pouco” e o que “não vai afetar minha vida tão brevemente e posso me preocupar num futuro incerto e indefinido”.

Cria-se então o que chamo a “desconfortável zona de conforto”.

Explico.

Regularmente converso com executivos que são extremamente ocupados. Estão pressionados pela entrega do resultado do próximo trimestre, têm de se preocupar com a alocação das verbas e sabem que a mudança ocorre num ritmo maior do que eles conseguem acompanhar. É desconfortável.

Alegam, porém, que esse é um problema “do mercado”. Então se cria a sensação de que “não estou pior do que a média”. E está instalada a “desconfortável zona de conforto”.

Tome-se o exemplo do investimento em mídia on-line.

Há 14 anos são realizadas campanhas de mídia on-line no país. Há 10 anos campanhas de mídia de performance.

Hoje temos disponível um conjunto de ferramentas e tecnologias que envolvem modelos de atribuição, mídia programática, personalização de navegação e muito mais, que permitiriam que a gestão desse investimento fosse realizada com uma eficiência incrivelmente superior.

E, ainda assim, a imensa maioria dos anunciantes e agências trabalha com ferramentas e critérios de performance que tem, no mínimo, quatro ou cinco anos de defasagem em relação às tecnologias mais modernas (e mais rentáveis). Mas todos estão dentro das práticas “do mercado”.

Criar uma agenda de inovação e constante aprendizado demanda que se abra espaço para interlocutores dos quais você (e provavelmente a maior parte “do mercado”) nunca ouviu falar e que serão empresas desconhecidas, menores que a sua, que fazem coisas que você não entende e que parecem pouco importantes ou urgentes.

E é exatamente por isso que irão tirar você da sua zona de conforto e/ou acomodação.

Considere a seguinte possibilidade: você contrataria um sujeito que foi rejeitado várias vezes pelas maiores companhias de tecnologia do mundo? Contrataria um trabalhador braçal para desenvolver software? Você consideraria a ideia de desenvolver o projeto de um comunicador gratuito dentro da sua empresa que gerasse zero de receita? E se o tal projeto já existisse por obra desses dois sujeitos, você os teria recebido e considerado tornar-se sócio deles?

Bem, essa é a história dos fundadores do Whatsapp. Um deles foi rejeitado pelo Facebook e pelo Twitter como funcionário. O outro trabalhou como faxineiro. E esse aplicativo que não tinha modelo de receita foi vendido por US$ 19 bilhões para o Facebook.

Detalhe: o Whatsapp tinha 50 funcionários quando foi vendido. Todos ficaram milionários. Você teria considerado a companhia como uma hipótese profissional quando ninguém a conhecia? Ou sequer a teria notado?

O fato é que o conhecimento evolui hoje a uma velocidade tão rápida como jamais vimos. E também a uma velocidade tão lenta como jamais voltaremos a ver.

Derrube as fronteiras do seu conforto, busque interlocutores fora da sua rotina, encontre tempo para estudar e inovar.

Você pode escolher não se mover, mas o chão sob os seus pés certamente se moverá.

Ana Nubié é chief strategy officer da Moma 

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