Crise por filme do Clube de Criação derruba lideranças da W+K

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Crise por filme do Clube de Criação derruba lideranças da W+K

Eduardo Lima, Fernanda Antonelli e Renato Simões deixam agência após peça polêmica associar movimentos artísticos a tragédias da humanidade

Alexandre Zaghi Lemos
9 de setembro de 2021 - 11h59

Atualizada às 19h20

Com saídas de Eduardo Lima, Fernanda Antonelli e Renato Simões, W+K São Paulo inicia período de transição e terá de repor lideranças criativas (Crédito: Arthur Nobre)

Os três líderes do escritório brasileiro da Wieden + Kennedy estão de saída da agência. A diretora geral Fernanda Antonelli e os diretores executivos de criação, Eduardo Lima e Renato Simões, deixam a empresa em decorrência da repercussão negativa do filme criado para o Festival do Clube de Criação e lançado na semana passada. Simões estava na agência desde 2015; Eduardo Lima, desde 2016; e Fernanda Antonelli dirigia a operação desde 2018.

A Wieden + Kennedy iniciará um período de transição no escritório de São Paulo, que será comandado interinamente por dois brasileiros que atuam na rede: André Gustavo, que por quase oito anos foi o diretor geral da base brasileira e desde 2018 é o diretor global para a conta de Nike, um dos principais clientes da agência; e Felipe Ribeiro, que é diretor de criação no escritório de Nova York, começou na rede em São Paulo e também passou pela sede, em Portland.

Nas últimas semanas, outros diretores de criação deixaram a Wieden + Kennedy São Paulo: Mariana Borga, na equipe desde 2019, e Fabiano Higashi, que chegou à agência no ano passado. Com isso, parte inicial do trabalho de André Gustavo e Felipe Ribeiro, além de enfrentar a crise instalada, será dedicada à reposição das lideranças criativas.

Já o diretor de criação Rafael Melo, que atua no escritório de São Paulo há sete anos, não está deixando a agência, como informado aqui inicialmente. O criativo irá participar do processo de reestruturação e, depois disso, deve seguir para a Wieden + Kennedy New York.

Na tarde desta quinta, 9, a Wieden + Kennedy enviou comunicado oficial ao Meio & Mensagem, no qual diz que não trata “trocas de liderança levianamente”, frisa que “era hora de uma mudança” e que “a decisão não foi tomada isoladamente ou apenas com base em um incidente”.

A peça polêmica veiculada na semana passada associa o surgimento de movimentos artísticos, como o blues e a Tropicália, a tragédias da humanidade, chamadas de “crises”, como a escravidão norte-americana e a ditadura militar brasileira — período classificado como “anos de chumbo”. O objetivo do filme “Crise, Crie” era divulgar a edição 2021 do Festival do Clube de Criação, mas ele foi removido das redes pouco depois da estreia, no dia 1º de setembro, após profissionais do mercado criticarem o raciocínio proposto, especificamente as cenas que mencionam o movimento Black Power como resposta criativa à Ku Klux Klan e o surgimento do blues em decorrência da escravidão norte-americana.

No mesmo dia, o Clube de Criação e a Wieden + Kennedy publicaram um pedido de desculpas. O Clube reconheceu que cometeu “um gravíssimo erro ao aprovar uma campanha equivocada e ofensiva”.

“Erro grande que não foi visto desta forma por quem fez e por quem aprovou”, disse Joanna Monteiro, presidente do Clube e CCO da Publicis Toronto, em entrevista ao Meio & Mensagem. Ela reiterou, no entanto, que o trabalho dos últimos dois anos do Clube de Criação tem sido focado em inclusão, com a formação do primeiro júri composto 50% por homens e 50% por mulheres, inclusão obrigatória de profissionais negros, criação da categoria Periferia Criativa e um projeto de debates somente entre profissionais negros do mercado, no Instagram do Clube de Criação, chamado Clube+Vozes. “O Clube é muito mais plural e aberto hoje”, disse.

Diante da repercussão, o Clube de Criação cancelou a eleição para a nova diretoria da organização, que seria realizada no dia 2 de setembro. A chapa única era encabeçada justamente por Renato Simões, que seria o novo presidente da entidade. “Entendemos que, havendo mais chapas concorrendo, aumentaremos o debate e a diversidade de pontos de vista, certos de que, com isso, teremos um processo de eleição mais rico e saudável”, diz o comunicado oficial do Clube de Criação que remarcou a eleição com votação online para 25 de outubro, com chapas podendo ser registradas até o dia 20 de setembro. O Festival do Clube está mantido nos dias 22 e 23 de setembro. A entidade decidiu ainda contratar uma consultoria de diversidade e inclusão.

Ainda na semana passada, a Wieden + Kennedy São Paulo também havia anunciado medidas para combater o racismo estrutural e ampliar a inclusão de profissionais negros no quadro da agência. “Erramos, sentimos muito e reforçamos nosso compromisso em mudar. Não há outra forma possível de encarar o que fizemos, muito menos o que causamos. Tirar do ar era o mínimo. Pedir desculpas, necessário. Transformar, urgente. E, principalmente, reconhecer que nada disso será suficiente enquanto não pararmos de repetir erros”, diz o comunicado oficial. A agência informava ainda ter firmado parcerias com o Instituto Formação Antirracista, com a Plataforma Semiótica Antirracista e com o Estúdio Nina, empresa de pesquisas focada no entendimento do público negro. As ideias iniciais eram realizar programas internos de mentoria para as lideranças e workshops para criativos e instituir um comitê com pessoas de diferentes áreas — e de fora da agência — para avaliar os projetos que serão lançados pela agência, a fim de identificar possíveis problemas e abordagens preconceituosas ou enviesadas nas mensagens.

O episódio também levou a Wieden + Kennedy São Paulo a revisar seus planos de inclusão. Segundo a empresa, atualmente 28,32% de seus colaboradores se declaram negros e a meta é elevar esse número para 37% em 2022, pois, diz a agência, esse é o percentual da população negra da cidade de São Paulo, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em declaração conjunta divulgada nesta quinta-feira, 9, Eduardo Lima, Fernanda Antonelli e Renato Simões afirmam: “É hora de partir. Orgulhosos do que construímos nos últimos 5 anos, temos uma agência pronta para a próxima liderança que chega. Agradecemos aos clientes e ao nosso maravilhoso time”.

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