Fabiana Feitosa, da Danone: “Precisamos reagir rapidamente”
Recém-nomeada CIO da operação brasileira comenta o potencial e desafios da transformação digital sobre os negócios
Na Danone desde 2018, Fabiana Nogueira Feitosa foi promovida a chief information officer (CIO) da operação brasileira em setembro.
Anteriormente, respondia como parceira de negócios das áreas de operações, qualidade e pesquisa e inovação, à frente da estratégia de dados e inteligência artificial (IA) da companhia para as Américas, baseada nos Estados Unidos.

Fabiana Feitosa, CIO da Danone Brasil: marketing e área de tecnologia vêm trabalhando de maneira simbiótica (Crédito: Divulgação)
À frente do novo cargo, a executiva dará continuidade à agenda de transformação digital da Danone, integrando, ainda, o comitê diretivo da companhia. “Hoje, com meus times, falamos muito que não temos mais business partners de tecnologia. Nós somos líderes de negócio que, por acaso, têm um background tecnológico”, diz Feitosa, ilustrando a importância crescente que a tecnologia vem assumindo nas organizações.
Entre cases em que a inovação já é aplicada a serviço dos negócios, a CIO cita a coleta e análise de feedbacks de consumidores nos Estados Unidos. Diante da fragmentação de canais, ferramentas já são capazes de capturar o tom de voz além dos textos para críticas e elogios, mesmo sem a presença de palavras associadas a reações positivas ou negativas, especificamente. Assim, a empresa aborda a inovação ao remediar eventuais problemas. “É um exemplo do que a indústria fala há muito tempo sobre colocar o consumidor no centro”, alega.
Hoje, a Danone Brasil vem investindo na modernização da camada de arquitetura de dados, incentivando o uso da IA aliada ao treinamento dos times. Questionada sobre os impactos da tecnologia sobre o futuro do trabalho, a executiva vê a adaptabilidade e a capacidade de navegar a ambiguidade como habilidades essenciais.
A agenda da companhia será dividida em três grandes frentes em 2027: o fortalecimento das soluções digitais em todas as pontas; estruturação da agenda de IA – em parceria estreita com a área de recursos humanos, prevê a ampliação do acesso às soluções, capacitação das equipes e criação de iniciativas disruptivas para elevar a atuação da Danone no País –; e criação de uma organização voltada ao futuro, mirando maior geração de valor e produtividade interna.
Em entrevista ao Meio & Mensagem, a CIO detalha o potencial da operação brasileira, relevância do cargo junto ao C-level, impactos da tecnologia sobre o marketing, entre outros.
Meio & Mensagem – Qual é o potencial da América Latina e do mercado brasileiro, especificamente, na adoção de novas tecnologias?
Fabiana Feitosa – O Brasil está muito bem posicionado quando falamos em inovação tecnológica na América Latina. É o segundo país que mais inova. Inovamos, inclusive, de forma desproporcional. O nosso desempenho de inovação no Brasil é maior do que a velocidade de crescimento. Então, analisando a relação entre PIB e desempenho inovador, inovamos mais do que o nosso PIB cresce, o que, para nós, é um sinal de que estamos em um terreno super frutífero. Temos muitas oportunidades aqui. É uma oportunidade também de trazer essa dinâmica de abertura para inovação para dentro das nossas equipes do Brasil. Temos atuado em diferentes frentes de capacitação dos nossos times internos e fazendo com que todo esse apetite por inovar esteja em processos, que podem ser menores e menos relevantes dentro da companhia, até atingir a organização de forma geral. Começamos com alguns casos menores de inovação, mas o nosso objetivo é realmente atracar a inovação de uma maneira mais organizacional, mais transformacional. Esse é o nosso objetivo.
M&M – Quais são os principais desafios do marketing e da comunicação e como o arsenal tecnológico pode auxiliar no dia a dia dos profissionais da área?
Feitosa – Em termos de consumo, o maior desafio, e não somente na Danone Brasil, é atender a expectativa do consumidor da maneira mais rápida possível. Ou seja, transformar aquilo que entendemos que seja um problema para aquele consumidor em uma ação muito rápida. Temos uma jornada de insights muito relevante e intencional no Brasil em garantir que esses dados estejam integrados, conversam entre si, e que possamos, a partir de diferentes fontes, ter uma fonte única para esses dados e entender como eles são interpretáveis mais facilmente pela área de marketing. Vejo um movimento muito interessante também em comunicação, de aproximação das áreas de TI. É quase como uma simbiose. As áreas estão trabalhando tão próximas que o TI deve entender e garantir que aquele retorno de investimento que virá. Temos que saber analisar um PNL e entender das nossas marcas, porque estamos investindo naquela marca específica. Mas a pessoa do marketing também precisa entender o que é um Power BI, uma interface. É quase que uma junção dessas funções, uma maneira de trabalhar e uma colaboração muito maior. Precisamos chegar nesse ponto em que as pessoas entendam que não estamos falando de duas áreas separadas, mas que irão cocriar o futuro que esperamos quando falamos de investimento para marketing e, mais do que isso, investimento eficiente para marketing. A maneira mais eficiente e adequada de atacar esse problema é realmente fazendo com que as áreas entendam a importância dos dados.
M&M – Como a tecnologia assumindo maior protagonismo potencializa a governança?
Feitosa – Governança nunca foi um tema tão falado dentro das empresas, e a inteligência artificial tem um papel muito relevante nisso. Primeiro, precisamos entender que falamos de uma transformação nunca vista antes, então, obviamente, os riscos também são maiores do que os que conhecíamos até aqui. Temos que pensar em modelos federados de operação. No mesmo momento que queremos entregar autonomia para as pessoa — na Danone temos entregue mais soluções de inteligência artificial, tanto para a produtividade, quanto para realmente transformar o business — mas um nível de responsabilidade vem com isso também. A questão é sempre esse equilíbrio. Temos um comitê de inteligência artificial com representantes de todas as áreas e dois “sponsors”, que são parte do comitê diretivo da companhia: um é o nosso diretor de RH e a outra pessoa sou eu, como diretora de tecnologia. A ideia é justamente essa. Não queremos bloquear o uso. Queremos que as pessoas sejam criativas e realmente usem as soluções, porque é a partir daí que capturamos o valor dela, mas precisamos colocar as barreiras e as ferramentas necessárias para que, eventualmente, não cheguemos ao ponto de prejudicar a reputação das nossas marcas.
M&M – Além de eficiência operacional e redução de custos, por exemplo, quais indicadores são essenciais para comprovar o valor da tecnologia?
Feitosa – Como diretora de tecnologia, gosto muito de conversar com as pessoas. Tenho reuniões regulares com pares, mas também com as pessoas que reportam para os meus pares, e com as pessoas que reportam para as pessoas que reportam para os meus pares. Eu gosto de entender e escutar qual é a percepção das pessoas com relação à tecnologia porque no final do dia, realmente, as soluções mais tecnológicas estão melhorando a vida das pessoas, mudando as formas de trabalho e trazendo o retorno esperado? O KPI número um é a percepção dos nossos consumidores, stakeholders e satisfação, além de como aquilo está se transformando no benefício para o negócio, efetivamente. Temos tido conversas muito intencionais com relação à priorização dos cases para o ano que vem e metas de entrega em soluções tecnológicas, muito sobre esse olhar de que precisamos ser muito racionais. Outro ponto muito importante é se a tecnologia nos ajuda a ganhar velocidade na tomada de decisão. Se preciso analisar dados de mercado e tomar uma decisão, se inovo ou não para aquele segmento, quanto tempo isso levava antes? Três meses, quatro meses? E quanto tempo isso leva hoje? Um mês, três semanas? É disso que estamos falando. Precisamos reagir rapidamente, especialmente hoje em dia, que o perfil dos nossos consumidores tem mudado tanto. É esperado que a gente traga coisas novas com mais frequência, então, a velocidade da tomada de decisão precisa ser acelerada através das nossas soluções digitais. E acho que o terceira é como isso se conecta com as nossas pessoas, como fazemos o upskilling dos nossos times com nossas soluções.
M&M – O CIO vem exercendo maior relevância junto ao C-level nos últimos anos? Como os comitês diretivos vêm tratando a temática?
Feitosa – Eu estou exatamente nesse momento. Assumi essa posição há pouco mais de dois meses e foi uma surpresa muito positiva entender e perceber, mais do que entender, que o comitê diretivo do Brasil enxerga a área de tecnologia e, por consequência, essa posição como estratégica para o negócio. Isso é muito bom. Obviamente, vem uma responsabilidade que é ser parte daquela entrega. Há uma agenda de crescimento da companhia da qual a tecnologia faz parte. É muito importante que essa mensagem também seja cascateada aos times que estão abaixo da nossa estrutura, para que todo mundo entenda realmente o papel da tecnologia. Deixa de ser aquela área de função operacional, que não deixa de ser verdade e ser essencial, mas conectando agora com essa parte muito estratégica, que é como a tecnologia aporta valor.

