Ponto de vista

Meu bom Medina

i 3 de outubro de 2011 - 12h42

No início da carreira, ainda integrante da banda Os Mutantes, Rita Lee fez sucesso com a música José (Meu Bom José) do francês G. Moustaki, em uma versão para português (acreditem !) de Nara Leão (1942 – 1989).

A música, de arranjo e notas medievais, foi o primeiro sucesso na voz da menina ruiva que se tornaria compositora de sons que fazem parte do repertório musical brasileiro, e conta a trajetória improvável de José, o pai de Jesus Cristo.

O tom da narrativa, interpretada com ares de singeleza e dramaticidade ainda constantes na voz da jovem cantora, é uma marca registrada da autora da versão e reserva para os ouvintes a constatação de que o José podia ter vivido outra vida completamente diferente da que viveu, tivesse não se apaixonado pela "sua Maria".

Acredito que a vida de todos nós seria realmente diferente não fossem as decisões que tomamos. A isso denominamos livre arbítrio, ou seja, nossa infinita capacidade de fazer escolhas e arcar com suas conseqüências.

A história de José é curiosa a ponto de inspirar uma canção, pelo fato de que suas escolhas não influenciaram somente a sua existência, mas sim a vida de milhões de homens e mulheres, mais de dois mil anos depois.

Nessa constatação não há nenhum sentido religioso. Caso tenha realmente existido, casado com a jovem Maria, protegido-a da perseguição ao seu filho, ajudado-a no parto em condições precárias, assumido e criado o menino como filho do casal mesmo sabendo que isso não era a verdade, transforma José em um personagem de apelo humano insuperável. Caso seja tudo uma grande invenção que superou o tempo, faz de José um dos grandes ícones da dramaturgia de todos os tempos.

Durante toda a canção de escassos dois minutos é praticamente impossível não se solidarizar com o José, a ponto de lamentar sua pouca sorte nos fatos que sucederam a partir da decisão de casar com Maria. Mas esse era o seu destino.

Em tempos de Rock in Rio e do sucesso da iniciativa é impossível não considerar o destino de todos aqueles que se empenharam na organização do mega evento e todos os riscos envolvidos em sua realização. Principalmente no destino de Roberto Medina.

Meu Bom Medina podia ter opções mais convencionais para desfrutar dos resultados dos seus muitos anos de serviços prestados à propaganda brasileira, mas as coisas não funcionam dessa maneira e Meu Bom Medina se empenhou em um projeto que tinha todos os ingredientes para lhe causar tremendas dores de cabeça.

O Rock in Rio 2011 foi um grande sucesso. Uma surpreendente sucessão de músicos, de estilos, de vozes, de luzes, de sons, mas principalmente, uma explosão de energia, onde a platéia performou tanto quanto os artistas.

As dificuldades de transporte, as filas para alimentação, a sujeira dos banheiros, os assaltos ao publico e a diversidade da programação, temas recorrentes dos urubus de plantão, serão debitados da nossa conta cultural e o saldo dessa planetária operação será positivo e o crédito é do Meu Bom Medina e toda a sua equipe que deram demonstrações inequívocas de capacidade de produção.

Meu bom Medina podia viver uma outra vida, em um outro planeta que não o do rock and roll ou do show business, mas seu destino, assim como o de José, é o de superar dificuldades em nome da paixão. Essa era a resposta da canção para as escolhas de José e é a minha resposta para as escolhas do Medina. Obrigado Meu Bom Medina.

*André Porto Alegre é sócio-diretor da Mobz.