Ponto de vista

O e-mail órfão

i 10 de julho de 2012 - 10h05

Para efeito do debate vamos admitir, somente enquanto durar essa leitura, que eu sou uma pessoa relevante na minha atividade profissional e que meus e-mails contêm informações, perguntas, esclarecimentos que podem contribuir para o desenvolvimento de um projeto ou a concretização de um negócio.

Nesse caso, e somente nesse caso, qualquer manifestação do destinatário me encheria de orgulho. Primeiro em ver confirmada que a mensagem foi efetivamente lida e, segundo, pelo tempo dedicado a uma satisfação de qualquer espécie.

O fato é que a prática da resposta às mensagens rareou em nossos dias. Ocupadíssimos postando 140 caracteres no Twiter ou alguma grosseria sobre futebol no Facebook, os destinatários das mensagens esquecem-se de manifestar sobre as demandas nelas contidas.

Francamente reconheço que os meus e-mails não devem fazer grande diferença no atribulado dia dos que necessitam de especial atenção para postarem as fotos do Instagram ou para a complexa atividade de organização do calendário de aniversário da penca de amigos.

Tudo fica pequeno diante da grandiosidade dessas necessidades digitais, portanto nossas mensagens do e-mail são objetos de segunda categoria. Tanto isso é verdade que reconhecemos como legítima a afirmação de que a mensagem “não chegou”, como se isso fosse realmente possível, e que, invariavelmente, está acompanhada do “manda de novo”. Um desrespeito.

Se é verdade que as mensagens não chegam e por isso não são respondidas, o universo paralelo de e-mails órfãos deve ocupar gigantesco espaço no cosmos . Algo maior do que tudo que se possa imaginar. Lá as mensagens perambulam sem destino, a esmo. Um verdadeiro limbo digital completamente diferente do inferno virtual que só é povoado por spams, um tipo de mensagem que existe exatamente para não ser lida e tão pouco respondida. Um fenômeno contemporâneo sem explicação lógica. Algo sem nenhuma utilidade que continua sendo produzido e distribuído aos montes.

Mas voltemos ao limbo. Lá convivem milhares de boas propostas e grandes oportunidades simplesmente rejeitadas por não possuírem o condão do compartilhamento, uma espécie de antídoto à mediocridade intelectual reinante que se baseia no fato de que tudo serve para todos, ao mesmo tempo. Uma mentira que beneficia os projetos hegemônicos em detrimento da inovação e da meritocracia.

Como ainda restam algumas linhas da minha suposta importância, seguem conceitos que podem fazer a diferença: ler e-mails não é caretice, é obrigação; responder e-mails não é generosidade, é educação; e generosidade não é compartilhar o que não tem relevância, isso é, para não dizer outra coisa, chateação.