O modelo jaboticaba
É saborosa a leitura da última edição da revista Proxxima, do Grupo M&M, a começar pelo editorial de Pyr Marcondes (página 6, agosto 2011) em que comenta o debate promovido pela editora para discutir nosso fiasco em Cannes nesse ano.
Em um momento do texto, Marcondes escreve "Entre as razões para não termos ido bem em Cannes – na verdade, em minha opinião, representando não estarmos por aqui produzindo excelência como poderíamos – foram citados o fato de que as verbas para o digital são menores do que deveriam e que o modelo de negócios da propaganda brasileira privilegia a preferência pela mídia tradicional (…)". O próprio jornalista enumera outras razões, mas, há tempos, esse Ponto de Vista, insiste em promover o debate sobre a influência do "modelo jabuticaba" (só existe por aqui) da propaganda brasileira, não só nos resultados dos festivais internacionais, mas também, e principalmente, na economia da comunicação nacional.
É nessa perspectiva que o debate deve prosperar. O cenário atual do consumo de mídias pelos consumidores garante a sobrevivência da estrutura da propaganda nacional? Ou, além de não ganharmos mais Leões, estamos investindo mal o dinheiro dos anunciantes tupiniquins?
As respostas para essas perguntas não seguem o roteiro tradicional do enredo encenado pelos atores da publicidade brasileira que, até então, se mostraram refratários a qualquer discussão que envolva o staus quo do nosso negócio. Se existirem respostas, serão acordadas com a nova geração de profissionais que não atuavam à época dos combinados que, ainda hoje, persistem a engessar nossa atividade.
Aqueles que escrevem a história da propaganda brasileira contemporânea vivem realidade diferente do modelo desenhado na década de 70, portanto é ingênuo considerar que irão adotar os modelos hereditários, ou seja, sem discussão.
Os arautos da continuidade deverão se capacitar para refutar argumentos mais elaborados do que suas defesas do nosso modelo jabuticaba. Prova disso é que na mesma revista Proxxima (página 81, agosto 2011), Marcelo Tripoli, Presidente da Ithink e membro do comitê de agências do IAB Brasil – Internet Advertising Bureau – afirma "Nosso país tem um modelo de agências de propaganda extremamente especifico e que funciona (hoje) financeiramente muito bem. O novo cenário da comunicação é complexo e arriscado e exige novos modelos de negócio das agências.".
As sentenças de Tripoli expressam sua atenção sobre importantes aspectos. O caráter específico do modelo jabuticaba, seus dias contados, a complexidade das multiplataformas e o risco da estagnação.
Marcondes e Tripoli vocalizam o sentimento comum aos que acreditam na necessidade de promover um ampliado debate sobre a estrutura da propaganda nacional para que se encontre outros modelos mais próximos da realidade do consumo de mídia.
Sobre a jabuticaba, que seja ela a única experiência genuinamente brasileira, afinal sua exclusividade nacional não chega a ser um empecilho para o nosso desenvolvimento.