Ponto de vista

Publicitários assim como Sarney…

i 28 de junho de 2011 - 12h09

…acreditam em acidentes. Por isso não podemos condenar o imortal Presidente do Senado por considerar o impeachment do Presidente Collor um evento esporádico que não merece registro em fotos nas dependências de nossa Câmara Alta.

Nós, publicitários, insistimos que o mensalão foi um acidente. Algo que não tem nenhuma correlação com a forma que fazemos negócios, tão pouco com o modelo brasileiro de propaganda que favorece a concentração de investimentos em projetos hegemônicos.

Nós, publicitários, insistimos que o Sr. Marcos Valério é (ou era) mais careca que profissional de propaganda. Fingimos que não o conhecemos e execramos sua figura do nosso convívio. Esquecemos que, semanas antes das denúncias, fazíamos reverência à capacidade negocial de suas duas agências, detentoras de polpudas fatias de verbas públicas e privadas.

Nós, publicitários, ao invés de aproveitarmos o mensalão e rever nossas condições de trabalho, nossos métodos de formação profissional ou o modelo de remuneração de nossas empresas, nos escondemos atrás de medidas paliativas de eficiência duvidosa.
Pessoalmente eu concordo com o Sarney. O impeachment foi um acidente que começou na eleição democrática do Presidente Fernando Collor, sabidamente um desqualificado que, à época, foi considerado o mal menor do que seu oponente.

O acidente do mensalão não é um caso isolado como tentam fazer crer algumas lideranças do mercado publicitário. Muito menos é assunto superado por decreto e distante do dia-a-dia dos que militam na propaganda. Nosso modelo de negócio favorece a concentração de investimentos e beneficia os projetos hegemônicos da mídia. Esse comportamento viciado encontra respaldo entre os anunciantes públicos e privados que insistem em "virar a cara" para um consumidor cada vez mais disperso entre as infinitas opções de informação e entretenimento.

O Sarney recuou, atendendo suas frágeis convicções sobre qualquer assunto. Nós, publicitários, precisamos avançar, atendendo o senso de responsabilidade que já demonstramos em outras situações e romper os paradigmas a favor de um modelo mais democrático e moderno.

* André Porto Alegre é sócio-diretor da Mobz