Copa do Mundo

Ajustes e anúncios: impactos da pausa de hidratação na Copa

Fora do Brasil, transmissores já lucram com o período de pausa, que tem gerado opiniões controvérsias sobre o assunto

i 26 de junho de 2026 - 6h03

Partida entre Escócia e Brasil contou com inserções comerciais na CazéTV durante a Pausa para Hidratação (Reprodução / CazéTV)

Partida entre Escócia e Brasil contou com inserções comerciais na CazéTV durante a Pausa para Hidratação (Reprodução / CazéTV)

Uma das novidades dentro dos gramados da Copa do Mundo Fifa 2026 foi a adoção da pausa para a hidratação (cooling break) em todas as partidas do torneio. Assim, durante um período de três minutos, geralmente na metade de cada tempo, o jogo é parado para que os atletas possam se reidratar.

Embora não seja uma novidade no futebol, uma vez que foi utilizada em competições como Copa Conmebol Libertadores e Campeonato Paulista, é a primeira vez que isso se torna algo obrigatório em todas os jogos de um torneio.

Durante essa pausa, os técnicos podem fazer alguns ajustes ou conversar com os jogadores. O presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, afirmou à imprensa norte-americana, que esse recurso foi trazido para o futebol como algo para o bem-estar dos jogadores, visando, inclusive, questões de temperatura, tendo em vista que os países-sede da competição estão em pleno verão.

O dirigente afirmou que a federação não lucrou em nada com a pausa, mas que fica satisfeito que os parceiros de transmissões tenham essa possibilidade.

E isso de fato aconteceu. De acordo com a BBC Sport, a emissora norte-americana Fox Sports, que é a responsável por exibir a Copa nos Estados Unidos, passou a cobrar entre US$ 200 mil e US$ 300 mil por um espaço médio de 30 segundos durante a pausa.

A imprensa local calcula que a empresa de mídia pode lucrar mais de US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão) apenas nos EUA. Isso porque, durante cada jogo, são disponibilizados quatro espaços por parada.

Segundo Ricardo Fort, fundador da Sport by Fort Consulting, que está acompanhando a Copa do Mundo in loco, paradas para hidratação criam uma nova oportunidade para as empresas de mídia. “Esse é um espaço publicitário que não existia há algumas semanas e que veio para ficar”, acredita.

O executivo afirma, ainda, que, como a decisão da Fifa foi tomada muito próxima ao início da Copa do Mundo, a entidade e seus parceiros de mídia não tiveram tempo para comercializar a pausa totalmente. “Mas em eventos futuros, isso fará parte do pacote vendido”, completa.

Como os veículos brasileiros estão aproveitando esse momento?

Para as empresas de mídia em solo brasileiro, esse momento também pode ser utilizado como um espaço publicitário. A CazéTV, por exemplo, aproveitou o break para exibir anúncios de Betnacional e Gemini (Google e YouTube), que já eram patrocinadores da transmissão do torneio, durante a partida entre Escócia e Brasil, na noite desta quarta-feira, 24, assim como aconteceu em outras partidas.

Já o SBT, que exibe o torneio de seleções juntamente com a N Sports, ainda não exibiu um comercial no cooling break, mas conta com um formato diferente do que costumam fazer habitualmente.

Em comunicado ao Meio & Mensagem, o departamento comercial da emissora diz que: “Esse ‘break’ representa uma nova oportunidade complementar de faturamento, mas sem grandes intervenções publicitárias. O maior valor está na qualificação da entrega comercial, menos intrusivas e potencialmente mais eficazes em termos de engajamento”.

Tiago Leifert, que narra a Copa na emissora e que foi um dos responsáveis por desenvolver a grade do canal durante o torneio, afirmou em uma live em seu canal que a pausa para a hidratação é, sim, um elemento comercial que ajuda os players a pagar pelos direitos, que são muito caros. “É caríssimo por um motivo: porque todo mundo quer, porque muda a sua grade. O SBT está transbordando de alegria por poder participar dessa festa”. O apresentador completa dizendo que a Fifa criou essa pausa para ajudar os detentores a pagar a conta.

Já na partida entre Japão e Suécia, a Globo apresentou campanhas durante a pausa para a hidratação. No primeiro tempo foi a Michelob Ultra, enquanto na segunda etapa o espaço foi ocupado por uma chamada da novela Quem Ama Cuida.

Paulistão pioneiro

Embora o assunto esteja ganhando tração agora, com a Copa do Mundo, pela grandiosidade do torneio e de valores envolvidos, a parada para hidratação é algo que já acontece com recorrência no futebol brasileiro.

A Federação Paulista de Futebol (FPF) estabeleceu a pausa como uma obrigatoriedade durante o estadual e gerou controvérsias e reclamações por parte da torcida. Mas no âmbito comercial, rendeu a dois dos transmissores (TNT Sports e CazéTV) uma parceria com Gatorade em algumas transmissões.

Nesses casos, durante a parada, os narradores dos canais faziam menções à marca, além de um banner tomar conta da tela.

Aceitação do público

Enquanto para os veículos o momento pode ser importante como mais uma oportunidade comercial, os torcedores nos estádios não parecem muito contentes com a parada.

Na partida entre Inglaterra e Gana, que aconteceu em Boston nesta semana, os presentes vaiaram quando a equipe de arbitragem sinalizou a pausa. A mesma manifestação aconteceu em outros jogos.

Entre os jogadores, ainda não há um consenso. O capitão da Holanda, Virgil van Dijk, disse que não gostou da pausa que leva à publicidade durante a partida. “Acho que, para os espectadores neutros que assistem pela TV, também não é algo muito bom. Então, se estiver realmente muito quente, obviamente faz sentido adotá-las. Mas acredito que é preciso analisar cada partida individualmente”, disse.

Já Rudi Garcia, da Bélgica, disse que é mais uma pausa para orientação técnica do que para resfriamento, então considera isso muito importante. “Talvez, se estivermos em um bom momento, com um bom ritmo, isso possa interromper nosso fluxo de jogo. Isso ainda vamos avaliar. Mas, durante os dois amistosos que disputamos… foi interessante poder transmitir algumas informações táticas à equipe”, comentou.

Para Fort, tanto o público, quanto os atletas devem se acostumar em breve com esse novo recurso. “Ainda há um pouco de reclamações nos estádios, mas isso deve acabar em breve. Como toda novidade, a aceitação leva um certo tempo. Foi assim com o VAR e assim será com as pausas para hidratação”, explica.