Opinião MWC

Além dos smartphones

A próxima fronteira dos negócios está na IoT

Ana Beatriz Basso

CMO da Ericsson para o Cone Sul da América Latina 3 de março de 2026 - 9h54

No mercado de comunicação e marketing, estamos constantemente em busca do próximo grande canal para engajar consumidores. Mas e se a maior oportunidade de crescimento não estiver onde todos estamos olhando? Dados recentes mostram que, no último ano, dos 6,8 milhões de novas assinaturas móveis no Brasil, impressionantes 6,4 milhões, ou 95% do total , não vieram de pessoas, mas de “coisas”.

Esta é a revolução silenciosa da Internet das Coisas (IoT), uma força que já representa 20% de todos os acessos móveis no país e que, até agora, operou em grande parte nos bastidores, focada em otimizar processos industriais. A grande narrativa que ecoa no Mobile World Congress (MWC) 2026, em Barcelona, é que essa fase está prestes a mudar drasticamente. A discussão não é mais apenas sobre como continuar a monetizar a base ‘humana’, que representa 80% do total, mas também sobre como a fusão da Inteligência Artificial (IA) com o 5G Standalone (SA) vai acelerar exponencialmente o crescimento e, principalmente, o valor estratégico da IoT.

A primeira geração da IoT operava, em grande parte, sobre uma rede 4G de melhor esforço. Funcionava para enviar dados, mas não para controlar operações críticas em tempo real. O que estamos vendo nos painéis do MWC deste ano é a materialização da próxima fase, impulsionada pela IA e pelo 5G SA juntos.
Essa combinação é o verdadeiro divisor de águas. O 5G SA permite algo que era impossível antes: criar fatias da rede com características específicas. Imagine um porto automatizado, onde guindastes e veículos autônomos precisam se comunicar com latência zero para evitar colisões. Com o 5G SA, é possível criar uma via expressa virtual e privada para essa operação, com desempenho garantido, imune ao congestionamento do tráfego comum de internet.

Essa é a grande mudança: saímos de uma rede que apenas transporta dados para uma rede programável, que entrega resultados de negócio. A IA entra como o cérebro dessa operação, analisando os dados dos sensores para prever falhas em uma linha de produção, otimizar o consumo de energia de uma fábrica ou orquestrar uma frota de drones para inspeção de infraestrutura.

Nos debates sobre a “Era da Inteligência” no MWC, observamos como essa nova infraestrutura está destravando casos de uso transformadores para as empresas. As indústrias, em vez de apenas monitorar, poderão controlar processos inteiros de forma remota e autônoma. Robôs colaborativos, manutenção preditiva que evita paradas milionárias e um controle de qualidade que “enxerga” defeitos invisíveis a olho nu se tornarão o padrão.

Na logística, o rastreamento de uma carga não será mais apenas sobre saber “onde está”, mas sobre garantir a integridade do produto em tempo real, com sensores que monitoram temperatura e umidade, e com a capacidade de reajustar rotas de forma autônoma para evitar atrasos.
A gestão de tráfego nas cidades deixará de ser reativa para se tornar preditiva. Redes de energia vão se autorreparar e balancear a carga de forma inteligente, e a segurança pública contará com sistemas de vigilância que analisam imagens em tempo real para identificar incidentes.

Agora imaginem a rede sendo usada como um radar, para detectar congestionamentos nas cidades, ou o movimento de drones? Essa tecnologia se chama ISAC, Integrated Sensing and Communications, e é um dos serviços planejados para o 6G que também será discutido em Barcelona.

O MWC 2026 deixa claro que a conversa sobre IoT não é mais sobre quantos dispositivos estão conectados ou se vai impactar seu setor, mas o que podemos fazer com essa conexão e como sua organização se conectará a essa nova era de inteligência. Para as empresas, isso representa uma mudança de mentalidade. A jornada que começa com a otimização de uma única máquina evolui para a automação de uma fábrica inteira e, finalmente, para a criação de ecossistemas de negócios totalmente novos. Essa é a promessa da fusão entre IA e 5G. E, em Barcelona, estamos vendo que essa promessa já está sendo cumprida.