Opinião MWC

Experiência é a bola da vez

Para mim, como profissional de Marketing, também é animador ver que a adoção cresce quando paramos de falar em termos técnicos e começamos a falar em benefícios

Ana Beatriz Basso

CMO da Ericsson para o Cone Sul da América Latina 2 de março de 2026 - 11h26

Os pavilhões do Mobile World Congress estão fervendo. Conectividade móvel e Inteligência Artificial estão em todos os painéis e palestras, e os novos casos de usos e possibilidades que essas duas tecnologias juntas possibiltam parecem saídos de filmes de ficção. Enquanto tento acompanhar as discussões e imaginar esse futuro hiperconectado, uma pergunta que ainda ouço de amigos não me sai da cabeça: qual a principal diferença do 5G, onde estão todos aqueles benefícios que falávamos anos atrás, aqui mesmo em Barcelona? E por que anos após a implantação desta tecnologia, os consumidores ainda não enxergam o 5G, além do que aparece na tela de seus smartphones?

É uma pergunta justa. Eventos como este existem para lançar tendências, testar ideias e colocar a próxima fase em movimento. Se você também tem essa mesma dúvida, te convido a seguir com a leitura. A resposta não está na velocidade, tão amplamente divulgada nos filmes que vemos na TV. Ela chega com o 5G Standalone — ou, como eu costumo chamar (para desespero dos meus colegas engenheiros), o “5G inteligente” — que transforma as redes móveis em plataformas de experiência que permitem entregar intenção com consistência. O grande benefício vem do desempenho de rede previsível, e quando mais importa.

A disputa por clientes oferecendo planos com mais dados e preços mais baixos chegou no limite. Mais gigabytes já não diferenciam em um mercado saturado. As operadoras que estão na vanguarda, e já perceberam isso, estão mudando a conversa da quantidade de dados para a qualidade da experiência, em que experiências aprimoradas viram a moeda e a medida de valor. Para tornar essa mudança real, os times de tecnologia e de negócios precisam andar juntos. As equipes de engenharia devem habilitar a rede, o marketing deve preparar as ofertas e os serviços para que, então, o time de vendas possa levar ao mercado.

Do lado da rede, robustez e flexibilidade são essenciais para atender consumidores, empresas e indústria. Capacidades como network slicing, gestão avançada de tráfego e garantia de qualidade fim a fim dão às operadoras as ferramentas para entregar desempenho consistente e previsível. A integração com os dispositivos e aplicativos faz a experiência parecer fluida, não “engenheirada”. Do lado do mercado, o valor aparece no que as pessoas precisam e quando precisam. As empresas buscam garantias de latência, confiabilidade e segurança para operações críticas. Os consumidores sentem a diferença em jogos, streaming e apps imersivos, especialmente em locais cheios e em horários de pico. Conectividade diferenciada não é apenas um recurso de rede, é uma proposta de valor ao cliente, que traz oportunidades reais de monetização para as operadoras e benefícios tangíveis ao consumidor.

E já começamos a ver essa nova forma de vender conectividade ganhando escala. As primeiras ofertas comerciais permitem que os clientes escolham o nível de experiência que melhor atende às suas necessidades — do desempenho garantido em locais congestionados, como quando você precisa pagar por uma comida em um estádio lotado, à uma rede mais ampla e com menor latência para um streaming mais fluido, para jogos em movimento e tempo real e em videochamadas sem interrupções. E o melhor: pesquisas mostram que as pessoas estão dispostas a pagar mais para ter desempenho garantido e, embora os planos baseados em performance ainda estejam no começo, a satisfação entre quem experimenta é alta. Esse movimento muda a conversa de “quantos dados você tem em seu pacote” para “quão confiável é a sua rede quando você precisa”.

Para mim, como profissional de Marketing, também é animador ver que a adoção cresce quando paramos de falar em termos técnicos e começamos a falar em benefícios. Em vez de “network slicing”, falamos sobre conseguir concluir uma compra durante um show lotado, sobre poder realizar uma chamada de vídeo perfeita enquanto está a caminho do seu trabalho ou sobre poder jogar sem “lag” na sexta à noite. O formato “one size fits all” não serve mais para as redes móveis; o crescimento vem de ofertas construídas a partir de casos de uso reais. Para consumidores, isso pode ser monitoramento residencial em tempo real, conectividade segura em viagens ou acesso prioritário em áreas congestionadas. Para empresas, é conectividade confiável, segura e customizável, atrelada a resultados de negócio — não a megabytes.

Tornar-se mais centrado em aplicações é como otimizamos o que o usuário sente, em diferentes dispositivos e contextos. A IA agora é o motor da personalização, da automação e das redes auto-otimizáveis, permitindo que as experiências se adaptem em tempo real. Experiências de realidade aumentada (XR) está trazendo novas formas de trabalhar, aprender e se divertir, do entretenimento e treinamento à colaboração remota e ao uso industrial. A convergência é a oportunidade: a IA torna a XR adaptativa e acessível, enquanto o 5G fornece a baixa latência e a alta capacidade para torná-la confiável em qualquer lugar. Espere ver a realidade aumentada movida por IA sair dos testes e casos de uso isolados e entrar no mainstream, com ofertas centradas em aplicações e novos formatos — como smart glasses — possibiltando novas fontes de receita.

O próximo passo é qualidade sob demanda (QoD). As APIs de QoD dão a empresas e aplicativos uma forma de solicitar características específicas da rede — como latência ou tempo de processamento (throughput) — quando precisam, especialmente em locais ou momentos de alto tráfego. A conectividade se adapta ao serviço. O QoD pode viabilizar novas fontes de receitas, mas precisa escalar. Isso exige enfrentar a complexidade da rede, um ecossistema fragmentado e com lacunas de padronização para interoperabilidade e operações.

Em resumo, a promessa do 5G aparece como desempenho consistente e diferenciado, que as pessoas percebem. Com o 5G Standalone, as operadoras podem alinhar suas ofertas às necessidades reais, ir além dos “pacotes de dados” e transformar as redes em plataformas de experiência. O futuro não é hype; é experiência, sob demanda.