Opinião

Dislexia Design Thinking e a nova forma de ver o novo

Não se trata de encontrar respostas diferentes, uma coisa é certa aqui no SXSW: o mundo precisa de novas perguntas

Samuel Leite

Fundador e CEO da Digitale 13 de março de 2017 - 12h43

Vir ao SXSW é de fato de uma experiência única. O slogan “Keep Austin Weird”, para mim, após o dia de hoje, poderia se transformar, pelo menos por um instante em “keep Austin Magic”, principalmente depois de conhecer Gil Gershoni. Gil é fundador e diretor de criação da agência que leva seu nome. Mas o menos importante sobre Gil – mas que merece menção em razão do fato que eu vou dividir com vocês – é que ele é disléxico.

Para quem não sabe, dislexia é termo geral para dificuldades no aprendizado de letras, números e outros símbolos, mas que não tem relação com a inteligência de um indivíduo. Segundo Gershoni, é algo como a incapacidade de decodificar padrões, mas que ele prefere denominar como: superpoderes que o permitem ver além do perceptível.

Gil não está sozinho neste panteão de super-heróis e assim como ele Pablo Picasso, Agatha Christie e o empreendedor multibilionário Richard Branson foram tidos como disléxicos.

Sob o olhar de um não disléxico, que busca padrões em tudo que enxerga, eu diria que há algo em comum entre essas pessoas. As formas como eles analisam o mundo, fragmentando suas percepções e combinando-as em sequência, colocando ordem ao caos, harmonizando coisas e juntando os pontos.

Na prática, criativos com dislexia apenas pensam diferente, provavelmente isso os ajuda muito mais do que não disléxicos e dá um novo sentido ao processo tradicional de design think, que conceitualmente se “abre” e “fecha”, trabalhando o conjunto de métodos e processos para abordar problemas, relacionados à futuras aquisições de informações, análise de conhecimento e propostas de soluções.

O que o processo liderado por Gil e April faz é justamente evitar uma solução ao problema e se concentrar no entendimento profundo que estão estudando. O caminho, neste caso é mais importante e relevante que o destino.

Entretanto, estabelecer um processo criativo neste contexto, exige disciplina e nisso Gil e sua sócia, April Durrent, são fundamentalmente obcecados. Em sua apresentação, o casal demonstrou detalhes do método de organização e criação e usaram para isso a célebre frase do pintor catalão, “A head is a matter of eyes, nose, mouth, which can be distributed in anyway you like. The head remains a head.” em uma tradução livre: “Uma cabeça são olhos, nariz e boca, distribuídos da forma que você quiser. Entretanto continua sendo uma cabeça”.

E é este ‘enfrentamento do modelo’ que Gil carrega como seu principal propósito e que eu finalmente cheguei em South Bay. Quero dizer, já estava aqui há alguns dias, mas a partir deste ensinamento tudo fica mais claro: a busca não se concentra em encontrar respostas diferentes, mas sim em fazer novas perguntas.