O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?
No SXSW, Brasil se destaca por criatividade, conexões humanas e visão crítica sobre o uso da IA
Um evento completamente descentralizado e distribuído no centro da cidade, em meio ao caos de milhares de pessoas com seus badges, lá se foi o meu 4º South by Southwest na sua 40ª edição.
Em meio a esse corre-corre — ou “tremendo bafafá”, como diziam meus amigos —, estávamos mais uma vez sobre a bendita (ou maldita) IA e seus desdobramentos. Mas o que eu mais ouvi foi sobre convivência, relacionamento humano e português. Sim, o Brasil era a maior delegação do evento.
Nos corredores, quando os brasileiros se encontravam, percebia em cada conversa um certo espanto sobre as discussões dos caminhos para onde a nossa relação com a tecnologia estava nos levando e, ao mesmo tempo, um acalanto quase ingênuo e muito brasileiro de como somos um povo capaz de nos conectar facilmente.
Onde estavam os brasileiros, estava a festa. Sim, somos expansivos, barulhentos e felizes, naturalmente livres. Alguns torcem o nariz para isso, mas eu vejo como minoria. A maioria — inclusive os que reclamavam: “não vim aqui para ver brasileiros” — se rendia quando nomes como John Maeda (e seus links infinitos) , Amy Webb (que fez performance e matou os reports) e Sandy Carter ( com sua lista AI First, HUMAN Always) falavam em nosso nome, buscando calor numa audiência que normalmente é mais quieta, mais introspectiva. Mas o Brasil não; o Brasil é cor, é som, é cheiro e é interação. Falando de comunicação e, no meu caso, de design, saí com a certeza mais que absoluta de que estamos no melhor momento do nosso país no sentido criativo da palavra.
A nossa velha conhecida escassez nos trouxe um nível de resiliência, manualidade, resistência e originalidade que poucos países no mundo têm. Somos um país esquisito, gigante, diferente, jovem e pulsante. Não à toa, somos contratados como referência no mundo todo — e não, não podemos nem devemos estragar isso, jogando nosso repertório em uma plataforma que vai mastigar o que temos e reproduzir da maneira mais clichê possível, acabando com a beleza da nossa imperfeição perfeita.
Devemos sim ficar de olho nas inovações e encaixá-las na nossa vida sem perder de vista o que temos de mais precioso no nosso país: o poder de nos conectar, o poder das conexões.
O alerta geral para a falta de noção de parâmetros no uso da IA e seus agentes — agora todo mundo tem um tamagotchi para chamar de seu — é que, como tudo na vida, se não for usado de maneira ética e regulada, já está transformando a nossa sociedade em ilhas de isolamento, agressividade e fealdade. Estamos nos perdendo na tecnologia de uma maneira que parece não ter mais volta, mas existem saídas. O Brasil é uma delas, se souber se enxergar e se valorizar, usando a tecnologia mais antiga do mundo: a troca.

O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade? (Créditos: Arquivo Pessoal/Van Queiroz)
Ver meu ídolo de infância — o diretor Steven Spielberg — falando sobre sua experiência, em que ele “exagerava tudo que o assustava” trazendo para o cinema ideias exorcizadas; que o desconforto é o que traz a potência narrativa; que menos controle gera mais criatividade; que devemos ser a favor da IA como ferramenta, não como autora; e que o lugar mais importante na mesa de criação ainda é humano — me deixou emocionada. Veja bem, sou otimista, mas não ingênua: sei que ele fala de um lugar de imenso privilégio, mas não desconectado, quando disse que não usava IA nos seus filmes e sim o dinheiro das grandes produtoras — e que, assim como eu, acredita que a IA é fundamental como ferramenta para que produtoras e empresas menores tenham mais acesso a mercados maiores. Mas, mais uma vez, sem tirar a camada humana da equação — e que o cinema, e eu acredito que o design também, é uma ferramenta coletiva.
Um bom projeto é um impulso também coletivo, e isso tem um valor cultural imenso.
Sendo assim, depois de quatro anos ouvindo, vendo e usando IA, continuo firme na minha posição: enquanto uns correm para acelerar processos, pensar menos e entregar volume sem qualidade, quem parar para pensar, usar a metacognição para respirar, repensar, errar, refazer e entregar algo novo vai sair na frente.
Talvez ganhe menos dinheiro — mas talvez passar por essa vida não seja só sobre isso.