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Spielberg, IA ancestral e as emoções que nos conectam

Talvez todos nós tenhamos mais afinidades do que discordâncias segundo o mestre do cinema

Annie Müller

Sócia e Diretora de Negócios da agência de branding Protarget 25 de março de 2026 - 15h27

Minha primeira memória com o cinema de Spielberg, como muitos da minha geração, foi através do filme E.T – o Extraterrestre – e da sua cena pedindo para voltar para casa. Eu nutria um sentimento ambíguo pelo filme. Sentia medo, parecia tão real, tão próximo de existir de verdade. Era uma mistura de encantamento com amedrontamento. Lembro de correr para o banheiro perto da sala de tevê e me esconder durante partes que mais me perturbavam. O protótipo de E.T de Spielberg me tocou pelo seu carisma e o seu mistério em medidas parecidas. Quando me aterrorizava, gritava do banheiro: pai, desliga a televisão! Mas quando ele fazia isso, eu logo me arrependia, pois na sequência surgia uma nova parte de que eu gostava. 

Assisti a palestra de Spielberg durante o SXSW na casa São Paulo, pois as filas eram enormes – a primeira pessoa “acampou” às 5am para o encontro programado às 1pm. Um festival de inovação onde as pessoas querem se encontrar ao vivo e a cores, cujo motivo para estar ali é justamente expandir e evoluir a nossa humanidade. Ainda assim, mesmo através da tela, o “ao vivo” tem a sua graça e o cineasta tocou a todos. Eu mesma aplaudi como se estivesse ali, cara a cara. A fala toda foi incrível, tratando-se do mestre que é. Mas, para além dos toques todos, me marcou quando Spielberg narrou a experiência do cinema, entre outras artes, como a experiência que conecta a todos. Numa sala escura, duzentas pessoas estranhas se tornam imediatamente tocadas pelas mesmas emoções, ainda que de forma e nuances diferentes. A conclusão é que talvez tenhamos todos mais afinidades do que discordâncias – o que, num mundo polarizado, pode ser entendido como esperança.

Inteligência ancestral

Sendo o SXSW o palco de potências criativas que é, dando acesso a nós, ouvintes, a lideranças em tantas áreas, é a partir do cruzamento desses talentos todos que extraímos o melhor do festival. Eu, feito esponja que sou, absorvo tudo intensamente. E, num dos keynotes sobre o futuro da educação, foi onde me reencontrei com a fala de Spielberg e com as emoções humanas que nos conectam e convergem nossa existência comum. Foi Lyn Jeffery, diretora do ITF (Institute fot the future), durante a palestra que debateu estratégia em tempo de caos, que ela citou a Ancestral Intelligence (AI), termo originalmente criado por Chris Chatmon, founder e CEO da Kingsmaker Oakland. Ele trouxe a ideia em sua carta mensal enquanto CEO aos  seus colaboradores. Nela, Chris provocou que devemos buscar a nossa sabedoria ancestral, aquela que está impregnada no nosso DNA, que pulsa nas nossas veias. Chris é um líder ativista pela educação das minorias negras dos EUA, mas o conceito de Inteligência Ancestral se expande e ganha novos contornos quando dentro do espectro inteiro que é o SXSW. Camada por camada, vamos cavando o que é inerente ao ser humano. Então, lá na fonte, brotam as palavras-chaves mais citadas nestes dias de South by: aquilo tudo que a Inteligência Artificial não alcança, mas que a nossa Inteligência Ancestral carrega inerentemente. Criatividade, intuição, senso de julgamento, coerência e verdade.  Esther Perel também falou sobre isso, no que chamou da ética do amor, quando foi clara que a IA não poderá superar relações afetivas humanas. 

Tom Sachs 

Outra surpresa muito bonita foi Tom Sachs, o aclamado e irreverente artista que trouxe o conceito de Sympathetic magic. Difícil traduzir para o bom português, mas essa magia empática é o que nos conecta enquanto humanos – a mesma, com outras palavras, que Spielberg narrou como emoções comuns a todos nós, as emoções que estão nas nossas relações cotidianas, que nos tocam nas artes, e que atravessa a nossa ancestralidade, gravadas que estão feito carga emocional no nosso código genético, geração após geração. 

Jung e os arquétipos 

Mais um salto de volta ao passado para enxergar o futuro e chego aos arquétipos do inconsciente coletivo, estudo publicado pelo psicanalista Carl Gustav Jung por volta de 1959 e até hoje tão estudado e aplicado quando falamos sobre psicologia ou comunicação. Para Jung, todos nós teríamos predisposições semelhantes para comportamentos e sentimentos. Esses arquétipos representam estruturas que onde a psique humana não seria somente individual, mas também coletiva. E que funciona como um reservatório de experiências ancestrais que se manifestam através de padrões universais presentes em mitos, religiões e sonhos em diferentes culturas. Alguma semelhança com as palavras de Spielberg, com os filmes que nos emocionam ou com a ideia de Inteligência Ancestral não será mera coincidência.

Realidade aumentada – e criativa

Neste ano, não consegui passar na exposição de XR (Extended Reality) que faz parte do festival, mas me lembrei de contar aqui uma experiência vivida no ano anterior. Participei de três experiências imersivas. Duas delas não mexeram absolutamente em nada comigo. Não me emocionaram. Mostraram suas tecnologias, sua capacidade audiovisual de nos colocar dentro daqueles espaços, mas não me envolveram. Até que entrei no Planeta Oto. E acertei em cheio. O planeta Oto foi incrível. Ele contava a história de um planeta distante, um habitat natural onde jazia um morador e seu cachorro, dois viventes que estavam tranquilos até a chegada de uma nave espacial. A paz da natureza foi quebrada pelo astronauta ambicioso que começou a levantar muros e a construir coisas. O desfecho foi sensacional. Busquem na internet, para eu não entregar o final. O que importa aqui: a narrativa, o storytelling, o conteúdo da história como protagonista. A forma como ela foi contada só tornou exponencialmente maior e melhor aquela boa ideia. 

A emoção & publicidade

Nancy Harhut foi mais uma pessoa de quem virei fã no South by Southwest, neste 2026 eu a assisti pela segunda vez. Inclusive comprei seu livro autografado (sou tiete de autor e coleciono autógrafos entre as prateleiras desorganizadas da minha biblioteca). No seu livro, Using behavioral science in marketing, ela apresenta anos de pesquisa como profissional de marketing, ex-diretora criativa de agências globais e agora professora que estuda a ciência da emoção. Os números que Nancy Harhut apresenta não são novidade para a maioria de nós, mas vale relembrar:

  • 85% das decisões são emocionais, nós apenas justificamos elas racionalmente;
  • A publicidade é 7X mais efetiva quando possui conteúdo emocional nos anúncios

Pesquisas da neurociência e neuromarketing provam que precisamos acessar a parte emocional do nosso cérebro para tomar decisões. Por isso que nós precisamos os dois: informações emocionais e informacionais nas nossas campanhas. Tão óbvio, mas na era da IA, da infopandemia, da economia da desatenção, acertar velocidade com atributo que explica e conteúdo que conversa é o desafio de milhões. É a conexão marca-humano, pessoas para além de consumidores. 

Muitas voltas e um só destino

O mundo tem bilhões de anos, chegamos numa nova revolução, a maior depois da industrial (só a descoberta do fogo e o cozimento do alimento é imbatível) e parece que voltamos para o início. O ser-humano como centro das conversas. Então, depois de tantas voltas, chegamos ao mesmo destino. Valorizar as relações. Valorizar o outro. Ser espelho para gerar simpatia e empatia. Valorizar o que fazemos de melhor como humanos, nos lembrou Tom Sachs. Obrigada, Tom, Nancy, Esther, Jung, Spielberg. Estamos todos conectados, definitivamente.