O que a letra A no meu crachá do SXSW ensina sobre o futuro
No SXSW, acessibilidade e empatia destacam inclusão como parte central da inovação e da experiência humana
Eu poderia escrever sobre a Amy Webb, as falas do Aaron Sorkin ou a onipresença da Inteligência Artificial em cada esquina de Austin. Mas, confesso: você encontraria outras análises mais relevantes por aí.
O que eu quero trazer desta vez é a minha experiência como pessoa neurodivergente no maior festival de inovação do mundo.
O SXSW é o epicentro global da criatividade. Para muitos, um parque de diversões de estímulos. Para mim, como uma pessoa com TEA (Transtorno do Espectro Autista), ele sempre pareceu a “tempestade perfeita” de gatilhos: luzes estroboscópicas, multidões imprevisíveis, filas quilométricas e uma cacofonia de sons que meu cérebro processa no volume máximo.
Por anos, o peso logístico e sensorial de um evento desse porte era maior que o meu desejo pelo conteúdo. Sempre fugi de experiências assim como o diabo foge da cruz.
O conflito: Latinidade vs. Sensorialidade
No meu último artigo aqui, explorei como a nossa cultura vibrante molda o futuro. Mas existe um desafio extra em ser um latino neurodivergente: como equilibrar o “calor” da nossa cultura expansiva com a necessidade de silêncio e ordem do autismo?
A resposta eu encontrei antes mesmo de pousar em Austin, no design de experiência da própria organização.
A letra “A” e a remoção da barreira invisível
A deficiência invisível carrega um custo alto: o masking. Passamos horas exaustivas tentando parecer “neurotípicos” enquanto nosso sistema sensorial está em colapso silencioso. Por isso, meu planejamento desta vez não começou pela agenda de palestras, mas pela aba de Acessibilidade.
Ao entrar em contato com a organização, recebi mais que um guia. Recebi uma Designação de Acessibilidade no meu crachá. Para quem vê de fora, é apenas uma letra “A”. Para mim, foi a substituição da ansiedade pela previsibilidade:
- Acesso Prioritário: Não é sobre “furar fila”, é sobre evitar o esgotamento que a proximidade física e a espera incerta causam.
- Assentos Reservados: Ter um lugar garantido perto da saída me permite focar 100% no conteúdo, sabendo que tenho uma rota de fuga segura se a sobrecarga chegar.
Entrar na sala para ver o Spielberg relaxado — sem o peso de horas de fila — e poder rir da nova série do Larry David com a mente descansada… isso não tem preço. É o privilégio de estar presente por inteiro, não apenas fisicamente.
A verdadeira inovação é humana
Muitas vezes celebramos a IA generativa como a grande fronteira, mas a maior inovação deste ano — para mim — foi o Design de Empatia.
O SXSW me mostrou que, para ser o maior evento de inovação do mundo, ele precisa ser acessível para todas as mentes — inclusive as que processam o mundo de forma diferente.
A vanguarda não está apenas no código ou no silício, mas na capacidade de incluir o humano em todas as suas camadas. O futuro da inovação é, acima de tudo, inclusivo.