A imprevisibilidade humana
Como a interação fora do clique se tornou a maior vantagem competitiva da era do algoritmo e da automação
Primeira vez em Austin, e viver a experiência do SXSW foi inspiracional. Escutei orientações dos que são veteranos no evento, acessei muitos conteúdos que se propõem a ser guias para que os atendentes possam extrair o melhor do vasto repertório. Consequentemente, comecei a ser impactado por diversos anúncios sobre o evento, quem estaria lá, e o que seria tendência. Acrescentei uma camada de intuição, e fui desbravar o aplicativo do SXSW, encontrando, a cada acesso, novos painéis para serem escolhidos. No meio de todo esse conteúdo veio a grata surpresa, e não foi sobre falar a respeito de tecnologia, negócios, mas sim sobre a importância do ser humano. Não era sobre algoritmos mais rápidos, modelos mais precisos, tutoriais sobre como desenvolver agentes (sim, havia pessoas com essa expectativa!) ou plataformas mais escaláveis. Pela minha perspectiva percebi um consenso incômodo entre acadêmicos, executivos, artistas, e tantas outras classes: estamos entrando na age of sameness — uma era de nivelamento por automação, onde produtos, conteúdos e estratégias convergem para o mesmo centro gravitacional. E o que parece ser uma alternativa, para quem quer se diferenciar, passa por algo que nenhuma máquina sabe replicar.
O problema do nivelamento é que quando todos acessam as mesmas ferramentas, a vantagem competitiva gerada por elas tende a zero. Na prática é uma proliferação de conteúdos, propostas e produtos que se parecem cada vez mais entre si. Posts que poderiam ter sido escritos por qualquer pessoa. Apresentações geradas em segundos, indistinguíveis umas das outras. Estratégias e execuções que o algoritmo já previu antes mesmo de serem entregues. E como surpreender? Ser diferenciado em um mundo que se modela dessa forma? É sobre opinião, percepção, interação humana real e julgamento que nenhum modelo consegue antecipar. A IA pode até mimetizar o comportamento humano, mas não pode prever aquilo que não é um dado imputado.
O algoritmo prevê o clique esperado, e entrega conteúdo e publicidade para quem é propenso ao clique. A IA é espetacular em calcular tudo que é mais provável: comportamento, resposta, decisão… Agora, como lidar com a inconsequência humana? A escolha irracional de um ser racional? O impulso afetivo, a reação genuína ao ver uma criança, um cachorro, a emoção de tomar um banho de chuva. O que fará o ser humano após esses impulsos? É imprevisível, e essa é a vantagem competitiva de nós humanos – sim, porque esse texto não é de IA – e que podem mudar o curso de uma negociação. Nos negócios temos implicações diretas! Clientes tomam decisões por razões que não cabem em nenhum funil. Profissionais permanecem em empresas por motivos que nenhuma pesquisa de clima captura completamente. Parcerias nascem de conversas que o CRM jamais teria recomendado. O SXSW é a prova disso. Inúmeras conexões se formam nas filas, nos cafés, na espera pelo transporte de aplicativo, no aluguel do patinete…
A conexão de forma intencional a partir de como o humano decide é o que estabelece relações genuínas e que são imunes à comparação de preços, ofertas dos concorrentes e ao que é hype. Até aqui não há meios como automatizar essa característica humana. Entretanto, há uma preocupação sobre o uso intensivo de IA e os custos – ainda invisíveis – da delegação ao chat sobre decisões, opiniões , construções. Muitos painéis apresentaram resultados de pesquisas onde já se identifica perdas cognitivas de memória e criatividade. Estamos delegando às máquinas funções que mais exigem dos nossos cérebros. Recomendo fortemente que busquem conteúdos sobre o assunto, há muitas pesquisas avançadas, e me preocupa a perspectiva de futuro.
Como gestor, isso me soa como um alerta, pois desde que estamos utilizando mais IA em nosso dia a dia tenho apontado para um caminho onde nosso pensamento seja ampliado, e não substituído. Nosso ativo mais valioso é a imaginação, a curiosidade, o insight que surge como resultante de vetores imprevisíveis e que permitem ao ser humano criar cenários infinitos e diversos. É preciso ter curadoria sobre o que não terceirizar. Caminhando para o futuro, e esse é construído a partir do que fazemos hoje, aprendi em muitos painéis sobre a necessidade de criarmos santuários para a imaginação social. Em um ambiente de mudança constante e hiper conexão, precisamos proteger ativamente os espaços onde o pensamento original ainda pode acontecer. A ideia é bem simples.
Voltei de Austin pensando em como desdobrar essas reflexões no meu cotidiano. Reuniões são para reportar ou opinar? Como líder, é preciso pensar em caminhos que estimulem a imaginação, e não somente cobrar a execução, o resultado. O quanto o improviso e a adaptabilidade imprevista precisam existir para que o inimaginável surja na discussão? O diagnóstico é preservar, e potencializar as habilidades mais valiosas: adaptação, antifragilidade, julgamento com contexto e intenções reais, para seguirmos imaginando futuros que nenhuma IA conseguirá prever. Volto de Austin ainda mais convicto que o valor humano é insubstituível.