Equalizando o virtual e o real
Cabe aos líderes das agências a criação de ambientes férteis capazes de unir as pessoas em torno de uma crença verdadeira e motivadora
Por Fernando Diniz
Vivi os últimos 15 dias entre o virtual e o real. E é difícil concluir claramente esta experiência, digamos, bidimensional: ora absolutamente inspirado e excitado com as possibilidades apresentadas, deixando a imaginação voar alto; ora aterrissando o pensamento e buscando o lado crível que transforma ideias em realidade. Nessas duas semanas de viagem aos Estados Unidos, passei pela Singularity University, que funciona em uma base da National Aeronautics and Space Administration (NASA), em São Francisco, o que por si só já ativa a imaginação. Já em Los Angeles, conheci a Magnopus, uma produtora de efeitos especiais, além dos estúdios da Universal e o centro de produção do YouTube.
Entre restos de foguetes, jatos e helicópteros militares antigos, cientistas da Singularity University falaram sobre como a tecnologia vai revolucionar a vida da humanidade no futuro. Biotecnologia, robótica, nanotecnologia, inteligência artificial, privacidade na era digital, realidade virtual, crimes digitais e o uso de drones foram apenas alguns dos temas que facilmente elevam a imaginação ao seu nível mais alto. Da teoria para a prática, o foco está voltado também para a realização de projetos que já deixaram de ser ficção científica.
Parti em seguida para Los Angeles e visitei a Magnopus, empresa de efeitos especiais e realidade virtual. Falamos sobre as mais diversas aplicações desses recursos, da medicina ao marketing. E, claro, também sobre cinema. Afinal, a produtora da saga Star Wars soma três estatuetas do Oscar no currículo. A próxima parada foi nos estúdios da Universal, envolto na mágica dos filmes de Hollywood, outra boa experiência entre o virtual e o real.
Por fim, participei de uma série de aulas ministradas no centro de produção do YouTube, em Los Angeles. Montada também em São Paulo e em outras cidades, a infraestrutura serve como apoio para produtores de conteúdo que utilizam a plataforma de vídeos do Google como canal de distribuição. Lá, a própria geração de conteúdo, como a entendemos hoje, foi muito debatida. O modelo tradicional da TV e a migração da audiência para as plataformas digitais, o controle dos horários de exibição nas mãos das pessoas – e não dos veículos –, o modelo de produção e a linguagem da internet foram alguns dos temas que alertam para novas oportunidades e sinalizam que muitos parâmetros começam a mudar.
De volta para o presente, deparo-me com a dura realidade de quem está há horas preso em um aeroporto, com voo atrasado e tentando sem sucesso sintetizar as últimas duas semanas neste texto. Vagando os olhos pelo ambiente, lembro-me de um trecho do livro “A arte de viajar", de Allain de Botton, que carrego em minha mochila. Botton diz que “viajar expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência”. Mais ou menos, foi o que aconteceu comigo. Além das fronteiras, percebi que o sucesso do nosso trabalho está em equalizar, todos os dias, o balanço entre o virtual e o real.
No campo virtual, flutua a representação mental daquilo que se pretende realizar, ou seja, as ideias. Aqui reside a inspiração, a permissão para sonhar, e cabe a nós, que estamos na liderança das agências, criarmos ambientes férteis capazes de unir as pessoas em torno de uma crença verdadeira e motivadora. E, por vezes, as agências falham nisso.
Já no campo real, aterrissa o negócio, ou seja, toda a arquitetura que permite a execução de uma ideia. E aqui vivemos um ostracismo. Você pode acreditar que as mudanças no mercado brasileiro estão em um futuro distante. Mas elas já são realidade, assim como muito do que presenciei na Singularity University e que também parecia ficção científica até então. Talvez essa realidade não exista ainda em uma proporção desconfortante. Porém, se o processo evolutivo da sua agência ainda não começou, esteja certo de que o futuro vai atropelar o seu negócio de forma profunda e impactante. É, meu caro, a galinha dos ovos de ouro já está em franca mutação.
Fernando Diniz é head de estratégia e conteúdo da Fbiz
