TECNOLOGIA

Encíclica desloca discussão de IA para a dignidade humana

Zeca de Mello, professor de ética da Fundação Dom Cabral, analisa a Magnifica Humanitas, divulgada por Leão XIV, com foco nos impactos da inteligência artificial

i 28 de maio de 2026 - 6h00

Papa Leão XIV publica a encíclica Magnifica Humanitas, que reflete sobre a IA

Papa Leão XIV publica a encíclica Magnifica Humanitas, que reflete sobre a IA (Crédito: Simone Risoluti – Vatican Media via Vatican Pool/Getty Images)

 No início desta semana, o Papa Leão XIV participou de um evento no Vaticano em que divulgou a Carta Encíclica Magnifica Humanitas. Encíclicas – termo que vem do grego enkýklios, “circular” ou “mensagem dirigida a todos” – são documentos divulgados há séculos pelos líderes da Igreja Católica.  No entanto, ganharam status de debate global no século XIX, a partir da Rerum Novarum, em que Leão XIII discutiu a influência da Revolução Industrial sobre os trabalhadores e a sociedade como um todo. O documento divulgado pelo Papa atual – e foi a primeira vez que um Papa participou presencialmente do lançamento da carta – trouxe outra revolução como tema central: a inteligência artificial (IA). Na entrevista abaixo, Zeca de Mello, filósofo, teólogo (é ex-padre) e há anos professor de ética na Fundação Dom Cabral, uma das principais escolas de negócios do País, analisa o impacto da iniciativa de Leão XIV, focada em IA, 135 anos após a Rerum Novarum.

 

Meio & Mensagem – Qual a importância, no contexto atual, de um Papa falar sobre IA em sua primeira encíclica?

Zeca de Mello – A Magnifica Humanitas foi assinada 135 anos depois da Rerum Novarum de Leão XIII, encíclica fundadora da Doutrina Social da Igreja, escrita em 1891 para responder ao impacto humano da Revolução Industrial. O paralelo é uma declaração de método: vivemos uma reconfiguração de magnitude comparável, e a Igreja entende que precisa entrar no debate antes que ele se consolide nas mãos de quem está vencendo a corrida. A encíclica inicia a abordagem sobre IA com tom condenatório, mas com a postura de busca, diálogo e discernimento: interrogar para compreender, dialogar para construir. Ao tocar a IA nesse registro, Leão XIV desloca a discussão do plano técnico-regulatório, onde as big techs têm vantagem, para o plano da dignidade humana, onde a Igreja tem dois mil anos de gramática.

M&M – Algum ponto específico da “Magnifica Humanitas” chamou mais sua atenção? Por quê?

Mello – Dois momentos me marcaram, e eles se iluminam mutuamente. O primeiro é a crítica explícita ao transumanismo. O Papa afirma que “o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa”, e que “fazer a tecnologia crescer eliminando os limites do humano significa fazer o coração regredir”. É uma inversão poderosa da narrativa hegemônica do Vale do Silício, que tende a tratar vulnerabilidade e finitude como “bugs” a serem corrigidos. A carta recoloca essas dimensões como o terreno onde brota tudo o que faz uma vida ser humana: relação, confiança, cuidado. O segundo é um gesto raro. No capítulo sobre as novas formas de escravidão, o Papa reconhece uma ferida histórica: “trata-se de uma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios… em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”. Esse pedido explícito de perdão pela escravidão é condição de credibilidade moral para falar dos novos desafios. A exploração de crianças nas minas de terras raras, o trabalho invisível por trás da economia digital, as dependências algorítmicas. Sem reconhecer a ferida antiga, não há autoridade para nomear a nova. Os dois pontos se entrelaçam: o primeiro recusa apagar a fragilidade do humano; o segundo recusa apagar as feridas da memória.

M&M – Qual sua leitura sobre a participação do co-fundador da Anthropic no evento em que o documento foi divulgado (mas apenas ele, sendo que há outras big techs igualmente relevantes explorando essa tecnologia)?

Mello – Christopher Olah foi o único representante de uma grande empresa de IA na apresentação. Em sua fala, reconheceu que “todo laboratório de IA, inclusive a Anthropic, opera dentro de incentivos que podem entrar em conflito com fazer a coisa certa” e pediu mais crítica externa de igrejas, sociedade civil e governos. A escolha não é casual. A Anthropic recentemente vetou o uso de seus modelos pelo Departamento de Defesa dos EUA. Ela se posiciona publicamente como o laboratório mais explícito sobre risco e alinhamento, o que parece tornar o interlocutor retoricamente compatível com o que o Vaticano queria sinalizar. Há, porém, um sério risco. O gesto do Vaticano pode ser interpretado como uma chancela moral involuntária.

M&M – Quando Leão XIV diz que é preciso “desarmar a IA” a expressão parece soar alarmista em relação aos efeitos da tecnologia. Qual sua visão sobre o futuro com a IA, tanto em termos sociais quanto no do desenvolvimento profissional das pessoas?

Mello – O próprio Papa esclareceu: “desarmar não significa recusar a tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade”, subtraí-la à lógica da competição armada, “que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva”. Acho que não se trata de alarmismo. É o oposto. Quem está armando a linguagem do debate são os atores que tratam a IA como corrida armamentista e estratégica. O Papa propõe desarmar essa gramática, não a tecnologia. Minha leitura do futuro distingue automatização de florescimento. Automatização é o que a tecnologia faz quando deixada à própria lógica de eficiência. Florescimento é o que acontece quando há intencionalidade, cultivo, vínculo, sentido. O futuro do trabalho dependerá menos do que a IA é capaz de fazer e mais do que escolhermos preservar como insubstituível: discernimento ético, escuta, cuidado, discernimento prudente, o que Aristóteles chamava de phronesis. As competências que vão se valorizar são justamente aquelas que a IA simula, mas não realiza: confiança, julgamento situado, coragem moral, capacidade de habitar a ambiguidade. Não porque a IA seja inimiga; pode ser excelente parceira de pensamento. Porém, sem esse arsenal humanístico, não saberemos o que pedir a ela nem o que recusar dela.