Atraso ou estratégia: o que Apple quer com o iPhone dobrável
Especialistas destacam que histórico da marca não é de pioneirismo e sim de construir devices que mudem a experiência do usuário

iPhone Duo chega ao mercado brasileiro em outubro, a partir de R$ 22 mil (Crédito: Reprodução)
Um assunto dominou as conversas sobre tecnologia na semana passada: o lançamento do Duo, o primeiro modelo dobrável do iPhone da Apple.
Entre diversas opiniões e análises, destacaram-se os comentários sobre o peço do aparelho (que, no Brasil, deve custar de R$ 22 mil a R$ 31 mil) e o fato de a gigante de tecnologia ter entrado na onda dos dobráveis bem depois de concorrentes, como Samsung, Motorola e Huawei, já terem lançado seus modelos.
Essas empresas, inclusive, não perderam a oportunidade de alfinetar a Apple nas redes sociais, mostrando que, aquilo que a companhia apresenta como novidade, já faz parte de seus portfólios há um tempo.
Ainda nas plataformas digitais, que concentraram todo o buzz sobre o assunto, algumas pessoas questionaram as razões de uma empresa inovadora como a Apple ter demorado tanto para lançar o seu próprio device dobrável.
O novo iPhone Duo, fechado, conta com tela externa de 5,4 polegadas que permite acessar praticamente todos os recursos do iOS sem a necessidade de abrir o aparelho. Quando aberto, o aparelho passa a ter 7,6 polegadas. A Apple também afirma ter desenvolvido a tela interna para minimizar a marca da dobra, com superfície mais plana e contínua. No Brasil, a pré-venda começa em 16 de outubro.
Histórico não é de pioneirismo
Apesar do burburinho em torno da suposta falta de timing da Apple, alguns especialistas em marketing e marcas pontuam que pioneirismo nunca foi o foco da gigante de tecnologia. Professora de Tendências e Futuro Inteligente na pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Lica Repetto, lembra que a grande lição de Steve Jobs, fundador da marca, foi transformar tecnologia em experiência de uso relevante e desejável.
“As concorrentes estão nessa categoria [dos smartphones dobráveis] há anos, mas ela ainda não se tornou realmente mainstream. De certa forma, essas empresas fizeram o trabalho de experimentação da categoria e a Apple, então, agora em um mercado mais maduro tecnologicamente”, opina.
Para a professora, a questão mais importante não é se a Apple chega ou não atrasada e sim se a empresa conseguirá fazer o que sempre fez: “usar uma tecnologia que já existe e fazer o consumidor percebê-la de outra maneira”.
Já Leandro Tessler, professor da Unicamp e gestor científico de educação e difusão do conhecimento no Centro de Pesquisa em Inteligência Artificial – Brazilian Institute of Data Science (BI0S), vê a Apple um pouco atrasada nessa competição do segmento dos dobráveis e destaca que, o fato de fazer esse movimento agora representa que a empresa não quer ficar de fora dessa tendência.

Concorrentes zombam da Apple após iPhone Duo
“Há desafios tecnológicos importantes na fabricação de celulares dobráveis e uma explicação que tem circulado é que a Apple exigia que não houvesse um vinco no display e isso atrasou o desenvolvimento”, diz.
Apesar de pontuar como as marcas concorrentes e até mesmo as de outro segmento aproveitaram o episódio para criticar a Apple, Tessler não acredita que esse buzz possa ser prejudicial à marca. “A Apple tem um público fiel que não deve se importar com essa publicidade”, afirma.
Alta competitividade
Ainda que tenha chegado um pouco tarde na prateleira dos smartphones dobráveis, a Apple ainda tem chance de ocupar uma posição de alta competitividade nesse segmento que ainda está em estágio inicial. Essa é opinião de Marco Aurélio Rodrigues, professor de Pós-graduação em Economia Criativa, Estratégia e Inovação da ESPM e do Programa de Pós-graduação em Marketing e Comportamento do Consumidor.
Rodrigues cita exemplos como os do iPod, Apple Watch além do próprio iPhone, para mostrar que a Apple não tem o costume de ser a primeira empresa a implementar produtos, mas sim de criar itens que gerem percepção de diferencial acima da concorrência. Por isso, segundo ele, era esperado que a empresa não saísse na frente em relação aos dobráveis.
“A julgar pelo histórico da empresa, sua marca, sua integração eficiente entre hardware e software, somada ao seu ecossistema que conecta desenvolvedores e consumidores de alta rentabilidade, coloca o iPhone Duo, ainda que um retardatário, em uma posição de alta competitividade frente aos concorrentes”, analisa.
A respeito da concorrência, o professor da ESPM admite que a Samsung tem a legitimidade para dizer que chegou primeiro, mas pontua que, nessa categoria, a disputa de marcas não se reduz a quem chegou antes. O risco para a Apple, segundo eles, aparecerá se o consumidor enxergar no Duo uma tecnologia que já conhecia, acompanhada de uma maça na tampa e o preço bem mais elevado.
“Mas, se a experiência do produto conseguir estabelecer de fato um novo padrão para a categoria, a discussão muda rapidamente. E esse é justamente o desafio da Apple. Ela não precisa provar que inventou o dobrável, precisa provar que havia uma razão para esperar pelo dobrável da Apple”, argumenta Rodrigues.
Novo CEO e a era da IA
Esse lançamento da Apple acontece em um contexto de mudanças. Desde o último dia 1º de setembro, a empresa passou a ser comanda por John Ternus, que substitui Tim Cook após 15 anos como CEO.
Ternus está na Apple desde 2001 e ocupava o cargo de vice-presidente de engenharia de hardware, tendo participado do desenvolvimento dos principais produtos lançados pela empresa nas últimas duas décadas.
Lica Repetto destaca esse momento de nomeação do novo CEO como um componente simbólico na apresentação do iPhone dobrável. “O Duo funciona também como uma declaração de intenção de uma nova liderança que precisa mostrar que a Apple ainda é capaz de gerar surpresa, desejo e conversa cultural em torno de um produto”.
Nesse mesmo contexto de movimentar o mercado, outro lançamento da companhia está agendado para esta segunda-feira, 14: a versão do iOS 27, com a nova assistente pessoal Siri AI.
Em relação à inteligência artificial, Repetto destaca que, apesar de outras big techs estarem também adiantadas no desenvolvimento de chatbots, existe o diferencial de a Apple controlar simultaneamente hardware, sistema operacional, serviços e uma enorme base instalada de dispositivos. Isso, segundo ela, permite que a empresa dispute a IA por um caminho diferente.
“Talvez ela não precise ter o ‘melhor chatbot’, mas sim fazer com que a inteligência artificial desapareça dentro da experiência e passe a funcionar de maneira integrada ao dia a dia do usuário. Isso é a cara da Apple”, acredita a professora.
Marco Aurélio Rodrigues também cita essa possibilidade de a Apple planejar que a Siri AI seja o elemento central da interface entre o dispositivo e o usuário. Já outra hipótese que o docente traz é de que a companhia aposte que o consumidor priorizará a familiaridade com seu iPhone e escolherá a plataforma de IA que achar mais conveniente, desde que possa fazer isso de seu iPhone.
As duas leituras, na visão de Rodrigues, são arriscadas. “Se as pessoas passarem a entender que os chatbots não são commodities, mas sim um diferencial competitivo, os consumidores da Apple poderão começar a escolher seus smartphones pela capacidade de integração com o modelo de linguagem. Nesse cenário, elas não comprar um smartphone para depois pensar em que IA vão usar: elas escolhem uma IA que converse melhor com ela. Por quanto tempo as pessoas continuarão enxergando no iPhone uma experiência premium se, ao mesmo tempo, entenderem que a Siri é ‘menos inteligente’ do que o Gemini?”, questiona.
