Futebol Feminino

Como a Hyundai projeta o futebol feminino no Brasil?

Em acordo de três anos com a CBF, montadora defende novo olhar do mercado para sustentabilidade da categoria

i 8 de outubro de 2026 - 6h01

Além do prêmio no Brasileirão, como a Hyundai planeja transformar o ecossistema do futebol feminino (Crédito: Divulgação)

Além do prêmio no Brasileirão, como a Hyundai planeja transformar o ecossistema do futebol feminino (Crédito: Divulgação)

A aproximação da Copa do Mundo Feminina da Fifa 2027 no Brasil colocou a modalidade no centro das atenções do mercado publicitário, mas a consolidação do esporte ainda esbarra no modelo tradicional de investimentos das marcas.

Na contramão dos aportes de oportunidade, restritos a campanhas pontuais durante a janela do torneio, a Hyundai Motor Brasil fechou um acordo de três anos com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), cobrindo mais de 500 partidas nacionais. A estratégia reflete um posicionamento focado em presença contínua e no questionamento às réguas tradicionais do marketing esportivo.

Continuidade frente ao patrocínio de ocasião

O contrato abrange o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Supercopa Feminina. Para a gestão da empresa, a abrangência geográfica e temporal do circuito nacional é o único caminho capaz de gerar um vínculo real com torcedores e clubes, superando a lógica de aparições isoladas em grandes finais.

“O valor desse patrocínio está justamente na continuidade. O acordo contempla mais de 500 partidas ao longo de três anos. Isso nos permite acompanhar diferentes clubes, atletas, torcidas e regiões, criando uma conexão muito mais profunda do que seria possível com uma ação isolada”, explica Ebru Semizer, diretora de marketing da Hyundai Brasil.

A executiva ressalta que ativações pontuais no calendário, como a entrega de um veículo zero-quilômetro à melhor jogadora da final do Brasileirão, ganham sentido apenas quando inseridas dentro dessa jornada de valorização do ecossistema.

“Desde o início, nossa intenção foi construir uma presença que fosse além da exposição da marca. O futebol feminino cresceu porque muitas mulheres continuaram jogando, competindo e acreditando mesmo quando o reconhecimento ainda era muito menor do que o talento entregue em campo. Se queremos contribuir para mudar essa realidade, precisamos colocar as atletas no centro da história”, afirma Ebru.

“Queremos crescer junto com a modalidade, ajudar a ocupar arquibancadas e aproximar mais pessoas. Quanto mais forte for o campeonato durante toda a temporada, maior será o valor para todos os envolvidos”, completa.

A crítica às métricas de ROI e aos gargalos do mercado

O ponto central da análise da montadora sobre o cenário brasileiro reside na maneira como os patrocinadores cobram retorno sobre o investimento (ROI). Para a diretora de marketing, avaliar o futebol feminino utilizando os mesmo indicadores de desempenho aplicados ao futebol masculino ignora décadas de assimetria no investimento e na estrutura oferecida às duas categorias.

“Se cobrarmos do futebol feminino, imediatamente, os mesmo indicadores de uma modalidade que recebeu décadas de investimento, exposição e estrutura, vamos perpetuar a desigualdade que queremos superar”, alerta Semizer. “Sustentabilidade não se constrói com uma grande ação isolada, mas com presença contínua, investimento e paciência para desenvolver audiência, novas referências e valor comercial.”

Diretora de marketing da Hyundai, Ebru Semizer detalha a visão da marca para o futuro do futebol feminino no Brasil (Crédito: Divulgação)

Diretora de marketing da Hyundai, Ebru Semizer detalha a visão da marca para o futuro do futebol feminino no Brasil (Crédito: Divulgação)

A executiva pondera que a evolução do setor depende do compromisso conjunto de todos os agentes envolvidos na cadeia do esporte, para além do aporte financeiro na camisa.

“O futebol feminino não precisa apenas de patrocínios. Precisa de um ecossistema comprometido com o seu desenvolvimento. Isso envolve contratos de longo prazo, maior regularidade nas transmissões, melhores condições para atletas e equipes, calendário consistente, formação de novas jogadora, mais conteúdo e uma experiência de estádio capaz de criar hábito”, defende Ebru. “Não podemos esperar a chegada de uma Copa do Mundo para começar a dar à modalidade a atenção que ela merece.”

Da tradição global ao legado de 2027

A atuação da marca no Brasil dialoga com seu histórico internacional. A matriz sul-coreana apoia o futebol feminino desde a Copa do Mundo de 1999, realizada nos Estados Unidos. “Para a Hyundai, essa história não começou agora. Portanto, não estamos entrando na modalidade apenas porque a Copa de 2027 será no Brasil. Estamos dando um novo capítulo local a uma relação que já existe há quase três décadas”, pontua a diretora.

O objetivo projetado para o ciclo até o Mundial em solo brasileiro é garantir que a movimentação do mercado resulte em ganhos permanentes após o encerramento da competição. “A Copa do Mundo será um momento extraordinário, mas o legado precisa começar antes do primeiro jogo e continuar depois da final. Queremos aproveitar esse ciclo para trazer mais pessoas para perto do futebol feminino e, principalmente, inspirar meninas a perceberem que esse espaço também pertence a elas”, conclui Semizer.