Patrocínio

Corinthians e Fatal Fans: entenda a polêmica

Contrato motivou representações no Ministério Público de São Paulo e no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária

i 27 de julho de 2026 - 12h28

Patrocínio do Corinthians reacende debate sobre regras para publicidade de marcas adultas no esporte (Crédito: Reprodução)

Patrocínio do Corinthians reacende debate sobre regras para publicidade de marcas adultas no esporte (Crédito: Reprodução)

O contrato de R$ 22 milhões assinado entre o Corinthians e a Fatal Fans, plataforma de monetização de conteúdo adulto desenvolvida pela software house Atlas Technologies, tornou-se o epicentro de um debate do marketing esportivo e da publicade. Válido até o final de 2027 (podendo alcançar R$ 31 milhões em caso de renovação), o acordo prevê a exposição da marca no calção do time de futebol profissional masculino, além de verbas para o futebol feminino, basquete e futsal.

Contudo, a parceria não demorou a encontrar resistência fora das quatro linhas. O caso motivou representações, que partiram de deputados estaduais e de associações dedicadas à defesa dos direitos da infância e do adolescente e foram encaminhadas ao Ministério Público de São Paulo (MPSP), denúncias no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), abaixo-assinados com dezenas de milhares de adesões e propostas de lei para restringir a veiculação de marcas adultas em eventos esportivos.

Questionado pela reportagem sobre o andamento do caso, o MPSP informou que o material recebido “está sendo analisado pela Promotoria de Justiça da Infância e Juventude da Capital” e ressaltou que, no momento, não há novas atualizações ou definições sobre o procedimento.

Sob a ótica jurídico-comercial, segundo Samuel Ongaratto, executivo de negócios da Atlas Technologies e porta-voz da Fatal Fans, a parceria entre o Corinthians e a Fatal Fans cumpre os requisitos formais: a patrocinadora é uma empresa constituída no País, recolhe impostos e atua em conformidade com o direito societário. Por outro lado, o futebol integra um ambiente cultural e familiar regido por normas de proteção, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O ponto central das representações no MPSP fundamenta-se no risco de “normalização” do acesso e consumo de plataformas de conteúdo adulto entre o público infantojuvenil presente nos estádios e transmissões em TV aberta. Críticos argumentam que a exibição ostensiva da marca pode atuar como estímulo para a busca digital.

Por outro lado, a empresa sustenta que a exposição esportiva visa à construção e desmistificação da imagem da marca. Em entrevista, Samuel Ongaratto defende o caráter regular do setor e sua adequação às normas vigentes: “O mercado adulto é legítimo, paga impostos e gera empregos, não deve ser escondido embaixo do tapete”, diz.

Ao abordar os receios quanto à segurança e ao acesso do público jovem às plataformas do grupo, o executivo aponta que a empresa é “especializada em softwares que contribuem para um ambiente de internet seguro para crianças e adolescentes. “Não desenvolvemos produtos para esse público e temos restrições para que eles não acessem as plataformas. Participamos das discussões da implementação do ECA digital e colaboramos com instituições judiciárias para tornar a internet mais segura”, afirma Samuel.

Branding e não erotização

Para a Atlas Technologies, existe uma distinção técnica entre a divulgação de serviços eróticos e o fortalecimento institucional de uma marca. A empresa reitera que o contrato no Corinthians não busca induzir o torcedor ao consumo de conteúdo adulto, mas fixar o nome do grupo como uma empresa de tecnologia.

“Nossa publicidade é meramente institucional, sem erotização, sem convite para acessar o site ou comprar conteúdo no estádio. Focamos nos valores de respeito, dignidade e segurança. Nos posicionamos como o Sebrae do mercado adulto, sendo ferramentas que ajudam profissionais a exercerem suas escolhas com mais segurança.”

Na visão de Ongaratto, o estigma associado à indústria adulta costuma encobrir a estrutura corporativa e a cultura organizacional desenvolvida por trás das plataformas do grupo. O executivo destaca as credenciais internas da empresa e o cumprimento de obrigações regulatórias como trunfos na relação com o mercado tradicional.

“O Conar já se manifestou anteriormente dizendo que nossas propagandas não prejudicam crianças ou adolescentes por serem institucionais. Se houver exigência do poder público para retirar a marca, nosso contrato com o Corinthians possui cláusulas que preveem esses cenários e obedeceremos à lei. A Atlas Technologies tem 300 colaboradores, é GPTW há cinco anos e foi eleita uma das melhores empresas para mulheres trabalharem, focando em igualdade de gênero e inclusão”, diz o executivo.

Histórico da estratégia de marketing

A chegada ao Parque São Jorge é o ponto mais alto de uma estratégia no futebol nacional iniciada em 2022. Antes do Corinthians, a empresa estampou marcas do grupo em clubes como Vitória, Ponte Preta, Paysandu, Remo e CRB.

A trajetória também registrou negociações que não se concretizaram. A marca tentou adquirir os naming rights da Arena da Baixada, do Athletico Paranaense, em uma oferta de R$ 250 milhões, recusada pela diretoria do clube. Depois tentou batizar o estádio do Vitória por R$ 100 milhões e alterar o nome do próprio clube baiano para “Fatal Model Vitória” por R$ 200 milhões — propostas que não avançaram após reações de conselheiros e da torcida do time.

A concretização do acordo com o Corinthians fundamentou-se em três pilares principais. Primeiro, as necessidades orçamentárias do clube tornaram o aporte financeiro expressivo um fator relevante nas decisões de gestão. Em segundo lugar, a negociação foi amarrada por restrições e garantias operacionais voltadas a resguardar ambas as partes. Por fim, o contrato foi fruto de uma aproximação prévia e de um processo formal de aprovação no clube.

“Sempre foi nosso objetivo devido ao tamanho e engajamento da torcida. Visitamos o clube em 2022, investimos em LED na arena em 2023 e fomos doadores da vaquinha da arena, iniciada em novembro de 2024 . O acordo atual foi uma decisão colegiada entre presidente, diretorias e torcidas”, resume Ongaratto.

Questões regulatórias de cláusulas do contrato

As discussões sobre os limites de exposição e a proteção ao público menor de idade resultaram na inclusão de cláusulas de salvaguarda no contrato. O acordo prevê o veto total da exibição da marca nas categorias de base, além da proibição do uso da imagem de atletas do clube em qualquer peça ou campanha associada a conteúdo adulto.

“Qualquer ativação ou peça publicitária precisa da palavra final do clube. Trabalhamos lado a lado com o Corinthians. Não podemos utilizar a imagem dos jogadores para peças publicitárias que envolvam Fatal Fans com o Corinthians”. Além disso, o porta-voz faz um alerta em relação a conteúdos manipulados que circulam nas redes sociais tentando associar a camisa do clube a materiais eróticos: “A marca não está em camisetas de crianças. Há imagens falsas, geradas por IA. Se as pessoas soubessem que a exposição é apenas institucional, boa parte da repercussão negativa seria apaziguada”, opina

Um dos pontos de maior destaque do contrato foi a definição sobre a presença da marca nas diferentes modalidades do clube. No futebol feminino, a logomarca da plataforma deu lugar à campanha “Respeita as Minas”, acompanhada do apoio a um portal voltado à orientação e proteção de mulheres vítimas de violência.

Com contrato ativo, executivo da Fatal Fans detalha blindagens contratuais e responde a questionamentos (Crédito: Divulgação)

Executivo da Fatal Fans detalha blindagens contratuais (Crédito: Divulgação)

Rebatendo acusações de social washing — a prática de utilizar causas sociais para mitigar desgastes de imagem —, Ongaratto diz que a iniciativa foi desenhada em conjunto com a diretoria alvinegra. “Nosso objetivo inicial era o uniforme masculino pela visibilidade, mas o clube propôs um projeto amplo incluindo futebol feminino, basquete e futsal. Escolhemos o feminino porque o valor do respeito une as marcas, entendendo que o respeito deve ser igual para quem joga futebol ou produz conteúdo.”

Efeito bet e o horizonte legislativo

A presença de plataformas adultas no futebol apresenta dinâmicas semelhantes às observadas no início da expansão das casas de apostas (bets) no esporte brasileiro, período marcado por debates regulatórios sobre a atividade. “Se as empresas são sérias e o conteúdo da propaganda não é erótico, não vejo problema em criar uma legislação que chancele e traga regras. É mais fácil questionar propagandas de cerveja com pessoas seminuas do que a nossa, que traz mensagens de segurança e respeito”, pontua

A continuidade do contrato e o desfecho das análises no MPSP e no Conar podem indicar os parâmetros jurídicos e mercadológicos que passarão a reger a presença de empresas desse segmento no ecossistema do futebol brasileiro.