MOBILIDADE

Iniciativa quer padronizar a gentileza no trânsito

Idealizadores do "Luz de Obrigado", Marcos Winter e Thiago Paschoa veem no projeto potencial para que marcas se destaquem em branding e inovação

i 4 de novembro de 2026 - 6h01

Como seria o trânsito com uma padronização da gentileza? É  partindo do questionamento que o ator Marcos Winter e o também artista e gestor de negócios Thiago Paschoa embasam o projeto “Luz de Obrigado”, que propõe a incorporação de um sinal luminoso adicional aos veículos para mediar a comunicação entre motoristas.

trânsito

Projeto “Luz de Obrigado” prevê instalação de dispositivo luminoso nos veículos para padronizar comunicação mais gentil entre os condutores (Créditos: frantic00/Shutterstock)

O plano foi idealizado por Winter há mais de 20 anos, quando viu, durante as gravações de um projeto no trânsito, que havia espaço para mais gentileza em meio a comportamentos, muitas vezes, agressivos e intolerantes, associados à carga emocional conhecida como “road rage”.

A iniciativa sugere a instalação de uma luz azul, inicialmente em automóveis, mas que pode ser aplicado também a outros modais, como ônibus, caminhões e motocicletas. Winter desenvolveu um modelo com a premissa em seu Fusca: uma luz de LED azul pode ser acionada por um botão no interior do veículo.

Há, contudo, barreiras legislativas. Atualmente, os comportamentos adotados pelos motoristas para alerta ou cortesia ainda tem caráter informal.

A frente da regulamentação foi a primeira a ser atracada. A dupla realizou encontros com a diretoria da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), uma vez que o projeto abre margem para redução de acidentes, de perdas materiais e financeiras. Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024.

A Associação forneceu monção de apoio alegando a compreensão do trânsito como um ambiente complexo, cujos “fatores humanos, comportamentais, emocionais e cognitivos exercem papel determinante na ocorrência e na gravidade dos sinistros”. Ainda reconhece que a proposta pode atuar como facilitadora comportamental por meio de um estímulo visual de caráter simbólico e educativo.

“Não falamos mais só sobre um acessório no carro para agradecer. Estamos entregando uma coisa que materializa muito do que se falou no trânsito durante muitos anos, que é a educação”, afirma Winter.

Hoje, Winter e Paschoa atuam em emendas ao existente Projeto de Lei nº 2.729/2026, do deputado federal Amom Mandel, do Republicanos-AM, inspirado na proposta da “Luz de Obrigado”. O PL prevê disciplinar a utilização facultativa de luz auxiliar de cortesia entre motoristas, e foi encaminhado às Comissões de Viação e Transportes e Constituição e Justiça e de Cidadania.

O artigo 13 da resolução de número 970 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) já aceita inovações tecnológicas mediante eficácia comprovada por certificação ou legislação internacional reconhecidas pelos órgãos máximos de trânsito.

Adoção pelo mercado

Os idealizadores veem no projeto uma oportunidade para que montadoras tornem-se pioneiras na adoção da “Luz de Obrigado”. Formado em comunicação digital e marketing, Paschoa iniciou carreira na Mercedes-Benz do Brasil, onde trabalhou por sete anos, e, do contato com o mercado, defende haver espaço para que o setor automotivo adote o dispositivo no portfólio.

“Nós enxergamos até mesmo o retorno financeiro para a própria empresa na questão de branding, de inovação e premiações por salvar vidas, não só pelo sistema ADAS (Advanced Driver-Assistance Systems) de um veículo, mas por um sistema que ainda ninguém abordou, mas que todos utilizam diariamente”, explica Paschoa.

Luz de Obrigado

Thiago Paschoa e Marcos Winter: idealizadores do projeto “Luz de Obrigado” (Crédito: Divulgação)

Em meio à tendência de veículos cada vez mais tecnológicos e conectados, a instalação do dispositivo poderia ser fonte de dados estatísticos anonimizados para iniciativas pública e privada. As informações viabilizariam, por exemplo, o mapeamento, análise e mensuração de locais com maior indecência de acidentes ou trânsito.

Os sócios defendem um caminho possível também para que as marcas exerçam papel relevante no contexto da mobilidade ao incorporar a construção de uma nova etiqueta de trânsito às agendas ESG das corporações, adicional ao impacto gerado pela eletrificação e combustíveis renováveis, ilustra Paschoa. Ambos veem uma demanda pela divulgação massiva e criação de campanhas que transmitam o propósito do projeto de maneira criativa.

“Uma campanha de branding de uma marca que se posicione como inovadora, como protagonista disso no mundo já traria uma conscientização na população, mesmo que os carros não ainda não tenham essa inovação”, aposta Paschoa.