Posicionamento político pode afastar marcas dos creators?
Eleições de 2026 reacendem o debate sobre cláusulas entre marcas e creators, risco de boicote e perda de seguidores

Rico Melquiades e Bianca Andrade se posicionaram abertamente nas eleições de 2026 (Crédito: Reprodução)
As eleições brasileiras de 2026 deixaram claro que as redes sociais se tornaram decisivas na política. Durante o período eleitoral, muitos criadores de conteúdo usaram seus perfis para se posicionar e alguns chegaram a declarar o voto abertamente. Já quem preferiu não se manifestar, muitas vezes foi pressionado pelos próprios seguidores a fazê-lo.
Esse posicionamento, ou até mesmo falta dele, teve consequências para alguns creators, como a perda de seguidores e, em certos casos, segundo os próprios, o cancelamento de trabalhos publicitários. Nenhuma marca, porém, afirmou abertamente que o rompimento do contrato se deu por causa de posicionamentos políticos.
Mas a avaliação do impacto varia de marca para marca. Nomes menores, para a CEO da YouPix, Rafaela Lotto, tendem a ter um pensamento mais alinhado com o posicionamento do “dono”, podendo até realizar boicotes declarados. Já para as grandes marcas, a executiva diz que elas entendem que o posicionamento é algo previsível na realidade do creator. Cada caso é analisado e não faz parte dos planos abrir mão de um creator “incrível” somente pelo fato de ele ter declarado seu voto.
Ana Paula Passarelli, CEO da Brunch, presidente do Sinapro-SP e professora na FAAP, lembra que a Constituição brasileira não permite que um cidadão perca seus direitos por causa de convicção política. Inclusive, desde 1995, a Lei 9.029 proíbe práticas discriminatórias que impeçam alguém de se manter no emprego.
Além disso, o Brasil adotou uma convenção da Organização Internacional do Trabalho que inclui a opinião política entre as formas de discriminação proibidas no ambiente de trabalho. Ainda assim, muitas marcas preferem se manter distantes da polarização e optam por criadores de conteúdo que não se posicionam. “Especialmente durante esse período, alguns criadores podem ser ‘preteridos’ pelas marcas ou até perder contratos”, reforça Rafaela.
Na maioria das vezes, de acordo com a CEO da Mynd, Fatima Pissara, as marcas optam por criadores mais “neutros”, justamente para evitar ataques e críticas de consumidores que defendem o lado oposto: “Já ouvi relatos de clientes que tinham personalidades contratadas que se posicionaram politicamente e, como consequência, alguns distribuidores cancelaram pedidos de compra”, conta, ressaltando que essa polarização pode acabar prejudicando as marcas.
A neutralidade, no entanto, pode não ser o melhor caminho para os creators. A CEO da Mynd relembra que artistas que não se posicionaram politicamente nessas eleições acabaram sendo criticados por isso. Um exemplo foi o cantor João Gomes, que após ser pressionado a se posicionar, se declarou “a favor da democracia” durante um show da turnê Dominguinho, projeto com Jota.Pê e Mestrinho.
“Vimos pessoas de diferentes posições políticas cobrando marcas por contratarem artistas que, na visão delas, não estavam preocupados com o futuro do país”, frisa Fatima, salientando que a polarização estava tão intensa que todos acabaram recebendo críticas, independentemente de se posicionarem ou não.
Inclusive, uma análise feita pela YouPix com 100 criadores durante essa eleição, mostrou que o engajamento de quem se posicionou, independentemente do lado, foi maior do que o daqueles que se mantiveram neutros.
Ana Paula gosta de reforçar, no entanto, que posicionamento político não é o mesmo que posicionamento partidário. Este foi, inclusive, tema de uma aula sua na disciplina de “Digital Creator”, na FAAP. A professora destaca que a própria existência de um criador pode ser política, como mulheres falando sobre finanças ou pais e mães LGBTQIA+ criando conteúdo sobre família.
“Quando falamos de posicionamento partidário, estamos falando de lembrar e entender quem é seu cliente, quem é sua comunidade. Porque um posicionamento partidário, em um país polarizado como o nosso, pode trazer desconforto”, comenta, ressaltando que problemas para os criadores geralmente surgem quando se defende um candidato específico e se entra em uma “briga de torcida”.
O que importa não é o que, mas como
Apesar disso, o posicionamento em si não é a grande questão na visão das executivas do mercado de creator economy, mas, sim, a forma como os creators se posicionam. “O que geralmente vemos é um posicionamento partidário que ataca uma outra parte e é completamente possível fazer um posicionamento partidário também de maneira respeitosa”, argumenta a CEO da Brunch.
Durante o período eleitoral, a Spark desenvolveu um painel de monitoramento em tempo real dos creators contratados pelas marcas e de suas publicações, para identificar com rapidez qualquer risco associado a elas. “Em nenhum momento, no entanto, houve orientação, em nome das marcas, sobre o que os creators deveriam ou não publicar”, comenta o cofundador e CSO da agência, Rafael Coca.
O executivo reforça, inclusive, que o creator constrói sua comunidade a partir daquilo que compartilha com ela e que a expressão de suas ideias e de sua visão de mundo é parte essencial do valor que ele entrega ao seu público.
Para os influenciadores, a transparência é fundamental. Neste sentido, Ana Paula alerta ser crucial que o criador deixe clara sua visão de mundo para sua comunidade desde o início, para que ninguém seja pego de surpresa. Criadores que já atraem pessoas com os mesmos valores sofrem perdas de seguidores menores em momentos de posicionamento.
A perda de seguidores nem sempre pode ser vista como algo ruim, mas sim como uma “renovação” da audiência. “Criadores perderam seguidores, mas ganharam outros tantos que se identificaram justamente com o posicionamento”, afirma Rafaela. Logo, na visão da executiva, para as marcas, esse momento pós-campanha tem uma audiência conectada e engajada, que pode as beneficiar muito e, inclusive, eliminar o efeito “hater”, já que todo mundo que estava eventualmente desalinhado com aquele creator já não o segue mais.
Relação de longo prazo
A preocupação com cláusulas contratuais entre marcas e influenciadores que restringem manifestações políticas é crescente. Cláusulas desse tipo podem existir, no entanto, as agências que intermediam essa relação podem negociá-las e até mesmo derrubá-las.
“Em algumas vezes conseguimos derrubar essa cláusula. E quando não, só pedimos o ajuste do texto. Vamos deixar a linguagem mais adequada porque se o que você precisa é a questão eleitoral, está tudo certo, não tem nenhum problema. Mas precisa estar melhor definido”, diz a CEO da Brunch.
Diante de um cenário de incertezas, os creators acabam recorrendo às orientações das agências. Rafaela observa que não há um padrão de postura por parte delas: algumas intermediam negociações com clientes para tirar as cláusulas de restrição, como já aconteceu com a Brunch; outras recomendam neutralidade; e há aquelas que incentivam o posicionamento responsável. “Mas também ouvimos de alguns creators que se sentiram acuados pelas próprias agências, uma vez que tinham posicionamentos contrários aos dos donos”, frisa a CEO da YouPix. Para a executiva, de agora em diante, as cláusulas contratuais devem receber mais atenção dos agentes, já prevendo essa possibilidade nos anos de eleição.
A mediação de crises por parte das agências é feita, principalmente, de forma preventiva. Fátima Pissara destaca que a transparência é fundamental nesse processo. “Nosso objetivo é que a marca saiba o que o influenciador pretende fazer e esteja preparada para lidar com possíveis desdobramentos. Dessa forma, evitamos que qualquer uma das partes seja pega de surpresa”, completa.
Já Ana Paula enfatiza a importância de planejar o impacto do posicionamento em três frentes: na comunidade, nos contratos de trabalho e na própria empresa, minimizando, assim, o risco de crises.
Apesar de uma crise momentânea na relação entre marcas e creators, no longo prazo, essa relação tende a voltar à normalidade, de acordo com análise da YouPix feita com influenciadores que se posicionaram nas eleições de 2022.
“Quem normalmente não volta a trabalhar com marcas, especialmente as grandes, são os criadores que, para além do posicionamento político, começam a se associar às pautas de costumes que, infelizmente, viraram bandeiras políticas”, explica Rafaela. “Marcas não querem estar conectadas a temas como racismo, homofobia e machismo, por motivos óbvios. E, quando o influenciador está muito associado a discursos nesse sentido, dificilmente volta a ser escolhido”, finaliza.


