Estadão: como modelo antecipou o resultado das eleições?
Criado por Rodrigo Mahlmeister, formato estatístico projetou desfecho com apenas 2,42% das urnas apuradas

Modelo estatístico do Estadão projetou o resultados da eleição presidencial de 2026 com apenas 2,42% das urnas apuradas (Crédito: Rafael Henrique/ AdobeStock)
O Estadão antecipou o resultado da eleição presidencial deste ano quando apenas 2,42% das urnas haviam sido apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
De fato, a projeção colocada à disposição dos leitores do jornal registrou diferença inferior a 0,2 ponto percentual em relação ao resultado oficial das urnas.
O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve 48,21%, de acordo com dados oficiais divulgados pelo TSE.
A totalização pelo TSE foi concluída às 23h26 de domingo, 25.
Contudo, além de prever o desfecho logo no início da contagem, o modelo estatístico do jornal, desenvolvido pelo pesquisador Rodrigo Mahlmeister, permitiu identificar tendências nos minutos iniciais e antecipar duas mudanças de liderança no decorrer da apuração.
Mahlmeister é doutorando em ciência política pela Universidade Duke (EUA), mestre em ciência política e bacharel em economia pela USP.
Ciência de dados e cruzamento histórico
Para estimar o resultado do segundo turno presidencial, a ferramenta combinou os dados do segundo turno de 2022 com os resultados do primeiro turno deste ano.
O objetivo era identificar padrões de comportamento eleitoral e estimar como poderiam se reproduzir na votação mais recente.
Para tanto, a análise considerou o desempenho eleitoral anterior de cada localidade, o estado e o porte dos municípios.
Eurípedes Alcântara, diretor de jornalismo do Estadão, explica que, a partir dessas informações, o modelo relacionou os resultados históricos com os dados das primeiras seções eleitorais apuradas para estimar o comportamento das urnas que ainda não tinham sido contabilizadas oficialmente.
“Diferentemente da apuração convencional, que apresenta os votos à medida que são totalizados pelo TSE, o modelo projeta desde o início o resultado provável do conjunto da votação”, revela Alcântara, ressaltando que, à medida que novos dados são divulgados, as estimativas são atualizadas, o que permite acompanhar as tendências da disputa e identificar possíveis mudanças de liderança.
Com isso, a precisão da projeção está associada à capacidade de reconhecer padrões sistemáticos de variação do voto entre eleições e localidades, e não unicamente ao volume de urnas apuradas.
Análise em tempo real
A capacidade de modelo estatístico do Estadão estimar o comportamento das urnas que ainda não tinham sido apuradas permitu identificar tendências desde os primeiros minutos da apuração, diz o diretor do jornal.
Permitiu, ainda, antecipar possíveis mudanças de liderança e oferecer ao leitor compreensão mais abrangente da disputa, mesmo quando uma parcela pequena dos votos havia sido contabilizada.
“A ferramenta também contribuiu para contextualizar oscilações nos resultados parciais, que podem ser influenciados pela ordem em que as urnas são totalizadas e, não necessariamente, representam o comportamento do eleitorado como um todo”, afirma o diretor de jornalismo do Estadão.
Na visão de Alcântara, para o jornalismo, a inovação está em transformar dados eleitorais em informação analítica em tempo real de forma a oferecer ao público elementos para compreender não apenas o resultado parcial, mas também o que pode indicar sobre o desfecho da eleição.
Novas fronteiras
O diretor de jornalismo do Estadão argumenta que metodologia empregada na apuração eleitoral abre perspectivas para a expansão da análise preditiva em outras coberturas jornalísticas que dependam da análise de grandes volumes de dados, da identificação de padrões históricos e da interpretação de informações que chegam de forma gradual.
“Para o jornalismo, o potencial está em combinar análise estatística, tecnologia e apuração editorial para oferecer informações mais contextualizadas, identificar tendências com maior antecedência e ajudar o público a compreender cenários em transformação”, complementa.
Além das eleições, essa lógica, segundo o diretor, pode inspirar aplicações em coberturas econômicas, por exemplo, para estimar tendências de indicadores a partir de séries históricas e dos primeiros dados divulgados; no acompanhamento de políticas públicas, para analisar a evolução de resultados em diferentes regiões; e em pesquisas sobre comportamento do consumidor, para identificar padrões a partir de informações parciais.
Apesar de a ferramenta ter antecipado o resultado das eleições presidencias no segundo turno e ser passível de ser utilizada em outros contextos, Alcântara frisa que a metodologia atua de forma complementar à apuração oficial da Justiça Eleitoral e não substitui a checagem, a interpretação dos jornalistas ou os dados oficiais.
