O que o Instagram deseja ao retomar vídeos longos?
Diretor artístico da Viraliza Entretenimento avalia que formato amplia possibilidades para marcas e creators

Instagram testa suporte de vídeos de até 90 minutos na plataforma (Crédito: Mamun Sheikh/Shutterstock)
Após o fim do IGTV (Instagram TV, que permitia a publicação de vídeos longos), o Instagram anunciou na nesta segunda-feira, 26, o retorno dos vídeos longos à plataforma, além da integração com a Apple TV.
O anúncio foi feito pelo chefe da rede social da Meta, Adam Mosseri, ao lado da vice-presidente de produto do Instagram, Tessa Lyons, em vídeo de seis minutos na plataforma.
Com suporte para vídeos de até 90 minutos, a nova ferramenta, intitulada “Features”, começou a ser testada por um pequeno grupo de criadores de conteúdo nos Estados Unidos.
Apesar de o público geral ainda não poder publicar vídeos no novo formato, caso os encontre é possível assisti-los.
O Instagram também testa um recurso chamado “Clips as Reels”, que permite que o creators transformem seus conteúdos de longa duração em Reels, que, consequentemente podem direcionar os espectadores para o vídeo completo.
Vídeo do Instagram na TV
Os usuários, ainda, poderão salvar o vídeo completo assistir no Instagram em suas TVs.
A plataforma desenvolve, por ora, recursos de descoberta aprimorados para vídeos ao vivo e um hub no perfil do creator para Reels episódicos, ou seja, conectados, recurso semelhante às playlists do TikTok.
No vídeo de anúncio (veja abaixo), Mosseri revelou que a equipe tem trabalhado na simbiose entre vídeos curtos e longos.
“Vamos tentar dar suporte a esses diferentes formatos, tanto no aplicativo para celular quanto no aplicativo para TV, o que, acredito, levará algum tempo para aperfeiçoarmos. Mas estou muito empolgado com isso e estamos comprometidos com o projeto a longo prazo”.
O chefe do Instagram admitiu que, por muito tempo, foi contra fazer vídeos longos na plataforma.
Uma de suas preocupações era como garantir que o Instagram não fosse apenas sobre entretenimento, mas também sobre conexão com os amigos.
“Se você assiste a um vídeo [no Instagram] por 10, 20 ou 30 minutos, são muitos Reels, fotos e carrosséis que você pode não ter enviado a um amigo”, o que significa menos curtidas e compartilhamentos.
Apesar disso, Mosseri afirmou que reconhece que há tendência de consumo e a necessidade de o Instagram “se apoiar” em vídeos longos, inclusive nas TVs.
Movimento de retenção
Na visão de Igor Beltrão, diretor artístico da Viraliza Entretenimento, agência de gerenciamento artístico e marketing de influência, esse movimento do Instagram não é uma volta ao passado, e sim movimento estratégico indispensável de retenção.
“O formato curto cumpriu e continua cumprindo um papel brilhante de atração e descoberta, mas historicamente o Instagram acabou virando uma grande vitrine de leads para o YouTube”, comenta Beltrão, ao analisar o movimento de criadores publicando cortes rápidos no feed para puxar o público a assistir ao conteúdo completo na plataforma vizinha.
Para o executivo, a retomada dos vídeos longos na plataforma também não está relacionada a uma saturação dos vídeos curtos, mas a uma diversificação do comportamento de consumo do público.
“O que acontece é que o espectador expandiu a forma como consome entretenimento: em certos momentos do dia busca a agilidade da rolagem rápida e em outros quer a imersão de um videocast ou entrevista mais aprofundada”, argumenta.
O que significa para creators, marcas e plataformas?
Para o mercado, esse movimento exige inteligência de distribuição.
Para criadores, na visão de Beltrão, não se trata de escolher um formato em detrimento do outro, mas de entender que um produto denso e bem estruturado alimenta todo o ecossistema de cortes rápidos.
Já para as marcas, o executivo reforça que ganha-se a possibilidade de alternar estratégias, trabalhando o impacto veloz com alcance massivo nos vídeos curtos e aprofundando narrativas de marca, contexto e conexão emocional nos formatos extensos.
Por fim, destaca que, para as plataformas, essa estratégia de aposta em vídeos longos permite disputar o tempo total de tela do usuário ao longo de todo o dia, cobrindo tanto o consumo rápido quanto o conteúdo de longa permanência.
“Em relação à disputa comercial, o Instagram entra em campo para evitar que o bolo publicitário de produções completas vá automaticamente para o YouTube”, completa, ressaltando que se a plataforma conseguir prender a atenção do público em vídeos de 40, 60 ou 90 minutos diretamente no feed, os planejamentos de mídia das marcas poderão unificar campanhas de ponta a ponta sem dispersar a audiência para fora do aplicativo.
Barreira do retorno financeiro
Apesar de a iniciativa posicionar a rede social da Meta como concorrente mais forte do YouTube, a plataforma ainda não compartilhou o seu programa de monetização para os creators.
“Se o criador investe tempo para roteirizar e gravar um conteúdo de 40 ou 60 minutos sem ter uma divisão programática e transparente de anúncios, a exemplo da estabilidade que o YouTube proporciona via AdSense, a adesão ampla e constante tende a travar”, salienta Beltrão.
“Ainda é cedo para compartilhar um modelo de monetização a longo prazo, mas estamos explorando maneiras para que os criadores ganhem dinheiro com marcas, fãs e o Instagram, incluindo incentivos baseados em desempenho”, disse um porta-voz da Meta ao TechCrunch.
“Acreditamos que, com o tempo, haverá benefícios cumulativos para os criadores contarem novas histórias, alcançarem novos públicos e encontrarem novos parceiros, o que deve gerar muitas oportunidades de monetização.”
Modelo de receita, entrega e métricas
Na visão de Beltrão, para que a ferramenta seja comercialmente atraente no longo prazo, a plataforma precisa viabilizar três pontos principais:
1. Modelo transparente de repasse de receita (rev-share): formatos nativos de publicidade durante a reprodução do vídeo com divisão justa de ganhos para os canais;
2. Entrega algorítmica equilibrada: agrantir distribuição real e orgânica no feed e no explorar para conteúdos extensos, sem canibalizar o alcance dos formatos curtos;
3. Métricas executivas de retenção: painéis analíticos com dados claros de curva de atenção para que agências e criadores possam comprovar o valor da audiência aos anunciantes parceiros.
“O influenciador continuará sempre concentrando o seu tempo e o seu melhor conteúdo onde a equação entre esforço de produção e retorno financeiro for mais sólida”, conclui Beltrão.