Opinião MWC

Explosão da IA pressiona fornecedores e deve encarecer dispositivos móveis, apontam os bastidores da MWC 2026

Transformações (e tensões) da indústria são observadas no segundo dia do maior evento sobre conectividade do planeta

Vinicius Boemeke

CEO da Pulsus 5 de março de 2026 - 10h22

No segundo dia do Mobile World Congress 2026, em Barcelona, uma percepção ganhou força nos corredores do evento: ao circular pela feira e conversar diretamente com fornecedores, ficou evidente que a revolução da inteligência artificial não está apenas acelerando processos, transformando estratégias e abrindo espaço para novos negócios: ela tensiona a base física e macroeconômica da indústria de conectividade.

De um lado, a demanda acelerada por capacidade computacional para aplicações de IA, especialmente em data centers e infraestrutura de nuvem, está deslocando prioridades produtivas; de outro, ela comprime a oferta de componentes essenciais para a fabricação de dispositivos.

O tema já vinha sendo antecipado por especialistas e consultorias ao redor do mundo, mas seus impactos começam a ser visíveis em negociações e nas dinâmicas do mercado.

Em conversas com empresas do ecossistema, por exemplo, uma constante chamou atenção: a resistência em fixar preços e prazos de entrega. Quando fornecedores evitam compromissos contratuais de médio prazo, o mercado costuma estar antecipando reajustes. E, neste caso, o vetor é a pressão crescente sobre semicondutores e, de forma mais crítica, sobre chips de memória.

Segundo relatório recente da IDC (International Data Corporation), por exemplo, a deterioração na disponibilidade de componentes de memória deve provocar uma reconfiguração relevante no mercado de smartphones ao longo deste ano. A consultoria projeta que o preço médio global dos aparelhos suba cerca de 14%, alcançando o maior patamar já registrado, em torno de US$ 523. Ao mesmo tempo, fabricantes podem perder viabilidade na produção de modelos abaixo de US$ 100, reduzindo a oferta de dispositivos de entrada.

Esse movimento não ocorre isoladamente. A nova onda de investimentos em inteligência artificial — que exige grande volume de memória de alta performance, como HBM e DRAM avançada — está absorvendo capacidade produtiva que antes atendia de forma mais equilibrada a economia, incluindo o segmento de dispositivos eletrônicos.

Para termos uma ideia desse cenário, um levantamento recente do Goldman Sachs Research, projeta que a demanda global de energia por data centers deve crescer 50% até 2027 e até 165% até o final da década, com 27% do consumo vinculado a IA. Além disso, cerca de 60% dos investimentos em inteligência artificial estão ligados a chips e hardware, de acordo com a McKinsey.

Ou seja: o que se consolida é um cenário de redistribuição de recursos industriais. Fabricantes de memória priorizam contratos mais rentáveis vinculados à infraestrutura de IA, enquanto produtores de dispositivos enfrentam maior volatilidade de custos.

Nesse contexto, qualquer oscilação relevante no preço de componentes pode significar revisão de portfólio de empresas de tecnologia, adiamento de lançamentos ou reposicionamento estratégico.
O impacto tende a ser duplo. De um lado, o consumidor deve enfrentar aparelhos mais caros e menor diversidade de modelos de entrada. De outro, a própria dinâmica competitiva do setor pode se alterar, favorecendo companhias com maior escala e maior poder de negociação.

Há ainda um elemento adicional: a imprevisibilidade. A ausência de compromissos bem definidos de preço e prazo dificulta o planejamento financeiro, a gestão de estoque e a definição da estratégia comercial. E, em um mercado caracterizado por ciclos curtos de inovação, a incerteza na base produtiva compromete a velocidade de resposta à concorrência.

O segundo dia do MWC deixa claro, nesse sentido, que a corrida tecnológica não se vence apenas com inovação de software. Ela exige coordenação industrial, previsibilidade logística e equilíbrio na distribuição de capacidade produtiva. É nesse ponto que desafios e decisões estratégicas mais complexas devem ser trilhadas por que deseja navegar nas transformações do mercado mobile.