Colaboração ou terceirização da pauta?
O WikiLeaks, organização transnacional, sem fins lucrativos, sediado na Suécia, que publica documentos, informações confidenciais (hackeadas de governos e empresas), vídeos e fotos, é responsável por furos mundiais de imprensa. Os vídeos dos ataques dos helicópteros Apache do exército americano a civis em Bagdá, que causaram a morte de 12 pessoas (entre as quais, dois profissionais da Reuters), catapultaram o WikiLeaks e o colocaram em evidência global. O portal, que se hospeda nos mais diferentes países para garantir sua permanência, funciona baseado no conceito de espírito colaborativo.
Lançado em 2006, o WikiLeaks já divulgou mais de dois milhões de documentos e se tornou fornecedor de informação bruta para veículos mundiais como os jornais The Guardian (Reino Unido), The New York Times (Estados Unidos) e revistas como a Der Spiegel (Alemanha).
No Brasil, o jornal Folha de S.Paulo acaba de criar iniciativa similar ao WikiLeaks. É o canal Folhaleaks que, conforme o diário, permitirá ao leitor enviar sugestões, informações e documentos inéditos capazes de gerar reportagens investigativas elaboradas pela equipe do jornal. “O internauta poderá fazer isso de forma anônima — o jornal preservará o anonimato das fontes que não queiram se identificar, procedimento autorizado pela Constituição brasileira quando necessário para garantir o direito à informação”, descreve a Folha.
Por conta dessa iniciativa e da polêmica em torno do WikiLeaks, o Meio & Mensagem questiona: quais são as implicações jornalísticas que podem surgir a partir de reportagens feitas com base nessas informações? Seguem as opiniões dos profissionais de comunicação sobre o tema.
Jornal
“Com a iniciativa Folhaleaks, o jornal abriu um novo canal de relacionamento não apenas com seus leitores, mas também com suas fontes de informação. Seja porque essas fontes se sentem livres de constrangimentos que teriam para revelar sua identidade ou porque encontram uma ferramenta de fácil manuseio para contatar a equipe do jornal, a iniciativa tem tudo para ampliar o volume de informações de interesse público veiculadas com exclusividade pela Folha. Cabe ressaltar, porém, que o jornal não se compromete a publicar tudo o que receber. As sugestões que chegam via Folhaleaks passam por rigorosa triagem da nossa equipe de reportagem, são complementadas no que for necessário e submetidas aos crivos de qualidade do jornal, que preconiza o pluralismo, o apartidarismo, a independência e a exposição com destaque dos argumentos das partes eventualmente atingidas pela informação.”

Acadêmico
“Ao perder leitores nos últimos anos, a imprensa escrita passou a abanar o rabo para aquele a quem ela, antes, consagrava apenas o papel de um consumidor passivo. A primeira tentativa de aproximação com o leitor foi o RSS (syndication). A segunda, o ‘comente esta notícia’. A terceira, ‘curta e compartilhe esse link’. A última é um pedido para que o consumidor passe a produzir reportagens. Na França, o jornal de maior sucesso é o www.lepost.fr, composto por leitores-repórteres remunerados. A ONG Dart Center, em Washington, atesta que a categoria com o maior índice de estresse no jornalismo é o cinegrafista porque o seu maior competidor virou o cidadão munido de um celular com câmera. As fontes têm preferido colocar os furos em seus blogs a repassá-los a jornalistas. No Brasil, o promotor Saad Mazloum bota seus furos em seu Blog do Promotor em vez de repassá-los a um repórter. O fato de a Folha de S. Paulo criar um banco de furos a ser alimentado por leitores é uma das tantas tentativas para fazer com que aquela entidade outrora tão desprezada por nós, o leitor, passe a exercer papel ativo na produção midiática profissional.”

Entidade
“A iniciativa da Folha é bastante interessante como método de coletar informações que possam resultar em pautas para o jornal. A maioria das informações que o jornal colete por meio desse mecanismo não resultará em reportagens, pois as pessoas imaginam que basta exprimir uma denúncia para que alguém tome providências a respeito. Obviamente, isso não é possível. O jornal terá de filtrar o material e decidir quais casos merecerão o tempo de repórteres na investigação. A aposta do jornal é que restarão casos interessantes o suficiente para justificar o esforço. A iniciativa traz risco para o jornal, pois haverá quem tenderá a considerar que a não publicação de uma reportagem terá tido origem em alguma intenção da própria Folha de ocultar informação. Isso será inevitável, e o jornal só conseguirá contrabalançar esse tipo (bem conhecido) de paranoia se souber dosar o que vier a ser publicado. Nesse sentido, seria interessante que o jornal publicasse estatísticas relativas ao número de casos cadastrados, quantos chegam à segunda fase, quantos merecem esforço jornalístico e quantos resultam em reportagens publicadas.”

Revista
“O acesso aos veículos de informação foi extremamente facilitado pela internet e as mídias digitais. O Brasil, que já era grande, ficou ainda maior, visto que, com mais acesso, cidadãos de todos os cantos do País anseiam estar retratados na grande mídia. Claro, nem sempre a imprensa situada nas capitais consegue ter total conhecimento do que acontece em todo o território nacional. Por isso, aproveitar das facilidades do mundo digital para efetivar o contato com o leitor é uma atitude oportuna e inteligente e foi exatamente isso o que fez a Folha de S. Paulo com a criação do Folhaleaks. Pela página, garantida sua privacidade e anonimato, o leitor pode enviar desde denúncias por escrito, até fotos e documentos. Outro ponto favorável é que o jornal não remunera a ‘fonte’. Ela envia sua denúncia ou sugestão e, ainda que, após a comprovação da veracidade do fato, o relato se torne uma matéria, não existe pagamento. Portanto, não há incentivo financeiro para que alguém se anime a fazer qualquer denúncia. Essa é, certamente, uma boa maneira de aproximar do público, sobretudo do jovem, usuário voraz das mídias eletrônica e sociais.”
