Capacitismo afeta 81% das mulheres com deficiência
Pesquisa aponta preconceito e falta de oportunidades como barreiras na carreira das profissionais no Brasil
Novo estudo revela que 3 em cada 4 pessoas com deficiência ou neurodivergentes na força de trabalho já passaram por pelo menos uma situação de capacitismo, preconceito ou discriminação no ambiente corporativo. Isto inclui comentários capacitistas, discriminação por colegas ou lideranças, desqualificação profissional e perda de oportunidades de promoção. Entre mulheres cis, no entanto, esse percentual chega a 81%.
O dado é da pesquisa “Radar da Inclusão 2026”, da Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil e realizada pelo Instituto Locomotiva. O relatório reúne as percepções e experiências de 2.526 pessoas com deficiência ou neurodivergentes e mostra os desafios da inclusão no ambiente profissional no Brasil, além de evidenciar os efeitos da combinação entre capacitismo e desigualdades de gênero.
Para além do recorte de gênero, a adição de novas camadas interseccionais tende a intensificar o problema. Entre as pessoas com deficiência que também se declaram LGBTQIAPN+, 84% relatam já ter sofrido capacitismo. Entre as mulheres negras com deficiência que trabalham há mais de três anos na mesma empresa, 48% nunca foram promovidas, percentual superior à média geral no estudo, de 44%.
A percepção de falta de equidade nas chances de crescimento também está presente entre as mulheres cis, uma vez que 56% afirmam não ter as mesmas oportunidades de desenvolvimento profissional que seus colegas.
Além disso, o estudo revela que estes desafios pesam na saúde mental destas mulheres. Quase metade das entrevistadas (49%) afirma não se sentir à vontade para discutir questões relacionadas à saúde mental com sua liderança direta ou com a área de recursos humanos.
“Os resultados do Radar da Inclusão 2026 evidenciam que as mulheres com deficiência ainda enfrentam barreiras que vão além do acesso ao emprego. O preconceito, a falta de oportunidades de crescimento profissional e a insegurança para discutir questões como saúde mental mostram que a inclusão precisa acontecer também na cultura organizacional”, analisa Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir.
O gargalo que começa na entrada
O capacitismo já desponta no primeiro contato do candidato a uma vaga de emprego, segundo a pesquisa, visto que 73% dos entrevistados relataram o ocorrido. Entre eles, 63% perceberam desvalorização do perfil profissional pela oferta de uma vaga com menos exigência de qualificação; 48% apontaram que o recrutador não estava preparado para conduzir a seleção de forma acessível; e 40% enfrentaram barreiras de acessibilidade que dificultaram a participação no processo seletivo.
A liderança também aparece como um ponto problemático na experiência das pessoas com deficiência: 53% afirmam ter sofrido preconceito ou discriminação por parte de gestores, enquanto 52% citam que a situação partiu de colegas da própria equipe e, 46%, de profissionais de outras áreas.
Apesar de 64% estarem empregadas na época do ocorrido, apenas 36% reportou o problema à empresa. Já entre os que recorreram aos canais internos, 47% não se sentiram respeitados ou acolhidos, 35% se sentiram parcialmente acolhidos e somente 18% avaliaram o acolhimento como total.
“Empresas que investem em lideranças inclusivas, acessibilidade, critérios transparentes de carreira e segurança psicológica conseguem criar ambientes onde essas profissionais podem se desenvolver e prosperar. Inclusão não é apenas contratar, é garantir pertencimento, desenvolvimento e oportunidades reais de crescimento profissional para todas as pessoas”, conclui Carolina Ignarra.
A amplitude da falta de acessos
A pesquisa ainda destaca que a acessibilidade segue como um dos grandes desafios das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Quando questionadas sobre o tema, 44% das pessoas entrevistadas relatam dificuldades em confraternizações, eventos ou momentos de integração com colegas, e 29% mencionam a circulação por espaços internos, como estações de trabalho, banheiros e refeitórios.
Para 49% dos entrevistados, ter uma deficiência ou neurodivergência reduz as chances de conseguir um bom trabalho. Além disso, 68% avaliam que nenhuma ou apenas uma minoria das empresas está preparada para receber esses profissionais. A percepção de desvalorização também aparece no tipo de oportunidade oferecida: 78% das pessoas na força de trabalho avaliam que as empresas contratam profissionais com deficiência principalmente para cargos de entrada.
Ainda no grupo das pessoas empregadas, 48% levaram mais de seis meses para conseguir uma nova colocação, e 59% afirmam que a empresa onde trabalham não oferece programas de mentoria, aconselhamento ou orientação de carreira voltados a pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes.
Ao avaliar as posições, a pesquisa revelou que a ampla maioria das pessoas que está na força de trabalho ainda não ocupa cargo de liderança (84%), enquanto 11% estão em cargos de média liderança e apenas 1% está na alta liderança.