O homem corporativo homoafetivo
Segundo Marilyn Frye, os homens hétero são heterossexuais, mas homoafetivos de várias outras maneiras

(Crédito: Gerada com IA)
Recentemente, fui apresentada à obra Politics of Reality: Essays in Feminist Theory (A Política da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista), da escritora Marilyn Frye.
A autora é descrita em alguns artigos na internet e também na Wikipedia como uma “feminista radical”. Não sei bem o que significa ser radical, nem farei juízo de valor sobre isso. Sou uma feminista, sem dúvida, aquela que acredita que não buscamos a supremacia feminina, apenas a igualdade de direitos. Se os homens sempre desejaram ocupar 100% dos espaços de poder, qual o problema de buscarmos nossos 50%?
Além disso, acredito no óbvio: quando se tem diversidade no topo, amplia-se a visão de riscos e oportunidades. Nossa vida, nossos negócios, nossas decisões diárias, tudo é avaliação em torno disso. Mentes iguais só pensam coisas iguais, impedem a transformação, a criatividade, novas soluções. E isso não é uma opinião, existem dados disponíveis em todo o mundo que mostram como nas empresas isso se reflete em resultados.
Estou trazendo à luz a visão da Marilyn Frye porque estamos num momento incrível do futebol feminino, e o que vemos nas redes sociais, digitais ou reais, é um reflexo cristalino do que ela fala na sua obra.
Resumindo a visão de Frye, os homens hétero são, na sua maioria, apenas heterossexuais, mas são homoafetivos de várias outras maneiras. As pessoas que eles admiram, com quem querem estar, quem valorizam, reconhecem e fazem questão de dividir a mesa, a viagem e os vínculos de trabalho são homens.
Toda vez que uma jogadora ou as seleções femininas se destacam, o roteiro se repete: comentários misóginos contra as jogadoras do futebol feminino emergem do esgoto dos pensamentos e sentimentos humanos, publicados na sua maioria por nomes sem rosto.
Em outra dimensão muito mais avassaladora, é uma vergonha ler os dados sobre o aumento da violência contra a mulher em dias de jogos do futebol masculino. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, em dias de jogo do time da cidade, as ameaças contra mulheres sobem 23,7%, e as lesões corporais dolosas, 20,8%, chegando a 25,9% quando a partida é em casa. E não é só no Brasil. Na Inglaterra, a Universidade de Lancaster identificou aumento de 26% na violência doméstica quando a seleção nacional vencia ou empatava, e de 38% quando perdia. O futebol funciona como gatilho emocional, mas no fundo, no fundo, a questão é bem maior – trata-se de algo atávico e físico de superioridade. Lamentável.
Em junho de 2026, uma reportagem de O Globo revelou ao Brasil uma engrenagem misógina na seleção brasileira de Flag Football (modalidade variante do futebol americano). Mensagens vazadas mostraram atletas homens tratando colegas de equipe, jogadoras e mulheres da comissão técnica com termos degradantes, incluindo ameaças de violência. O padrão se repete porque a lógica é a mesma descrita por Frye: entre eles, cumplicidade e lealdade; para elas, controle, humilhação e, quando confrontados, a tentativa de calar.
No futebol brasileiro, infelizmente, os exemplos de ataques se estendem também a jornalistas, narradoras e árbitras, pelo simples fato de serem mulheres. Assim como no mercado de trabalho, é uma questão de espaço.
Quem está no mundo corporativo ao longo de décadas como eu, viu isto acontecer com tintas muito fortes por muitos anos, e hoje segue acontecendo com uma leve melhora, visto que nem pega bem fazer o contrário.
Mas, ainda assim, há quem não consiga disfarçar a reverência pelos homens e o desprezo pelas mulheres. Não é à toa que as microviolências de fala, como o manterrupting, mansplaining e gaslighting, existem. Não é à toa que muitas vezes as mulheres são sorrateiramente impedidas de disputar cargos, promoções e ideias. Não é à toa que a igualdade salarial regida por lei é desrespeitada. Como disse, há uma pequena melhora, e cabe às mulheres se posicionarem forte e claramente quando forem confrontadas com alguma destas atitudes.
Atenção: faço uma pequena pausa aqui no meu texto para pedir uma coisa aos homens. Meu caro leitor, se você está incomodado com este texto, por favor, não diga que estou “acusando os homens de serem gays”. Sim, uma vez presenciei uma acusação assim. Anos atrás, uma amiga, grande profissional do mercado, mencionou no palco estas características de admiração e proteção entre os homens, algo que exclui as mulheres acintosamente, porque eles só conseguem se sentir bem entre si. Uma abordagem muito parecida com a de Frye. Na plateia, onde eu estava sentada, ouvi vários homens insultando-a porque “ela está dizendo que somos gays”, diziam eles. Uma loucura total.
Doeu fundo neles porque certamente se enxergam naquela situação e não têm autopercepção do preconceito subliminar (ou não) que têm contra as mulheres e criam qualquer narrativa nas suas cabeças para combater esta ideia. Mas nem ela, nem eu, estamos falando sobre nada além do que observamos. Nossa abordagem é técnica e respaldada por fatos.
Voltando ao texto: quando o futebol feminino está em evidência, muitos homens enlouquecem, porque não pode haver concorrência na atenção de um espaço que eles acham que é só deles, seja no campo ou no mercado de trabalho que agora se abre para nós, mulheres — dirigentes, médicas, árbitras, psicólogas, terapeutas, técnicas e em outras profissões.
Mas, olha, tenho algumas boas notícias pra dar. Desde 2022, as jogadoras da Seleção Feminina de Futebol dos Estados Unidos conquistaram a igualdade salarial. Na última Copa do Mundo Feminina, a audiência global foi de 2 bilhões de pessoas. E temos que levar em conta que a Australia e a Nova Zelândia estão num fuso horário que não é tão adequado à audiência das grandes torcidas futebolísticas que estão no Ocidente.
Mas, mesmo assim, 47% da audiência era de homens. Em junho de 2026, no Itaquerão e no Castelão, onde aconteceram os amistosos da Seleção Brasileira Feminina com a Seleção Americana, a audiência era de famílias inteiras, não só mulheres. Homens, garotos e meninos também estavam nas arquibancadas torcendo, e depois tentando tirar fotos com as jogadoras, o que nos faz pensar que a Copa do Mundo Feminina será um espaço de convivência de respeito mútuo e engrandecimento da maturidade de toda a sociedade. Lembrem-se: não queremos 100%, apenas 50%.
Concluo esse artigo deixando um “Salve!” para os homens que valorizam um mercado diverso e uma família diversa, alguns dos pontos mais relevantes para a tão sonhada paz entre os seres humanos.
Para denunciar violência contra a Mulher, ligue 180.