OPINIÃO: LUCIA BITTAR

Como chegamos até aqui?

Cuidar de si mesmo talvez seja uma das competências mais importantes do nosso tempo

Lucia Bittar

Diretora de Marketing de Mobile Experience da Samsung Brasil 29 de outubro de 2026 - 11h11

(Crédito: Unsplash)

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Cheguei a uma idade em que comecei a ver pessoas muito próximas de mim, e muitas da minha idade, adoecendo.

Às vezes é algo relativamente simples. O colesterol que subiu, a pressão que começou a mudar, um exame que veio diferente. Outras vezes, infelizmente, é coisa séria de verdade.

E, quando isso acontece tão perto, é inevitável parar e pensar: como chegamos até aqui? Será que poderíamos ter percebido alguma coisa antes? Será que poderíamos ter feito algo diferente?

Não faço essas perguntas para trazer mais culpa ou pressão para uma vida que já tem pressão suficiente. Faço porque comecei a pensar mais sobre longevidade e, principalmente, sobre como estamos cuidando de nós mesmos hoje.

Nós falamos muito sobre viver mais. Mas viver mais como? Para mim, longevidade não é apenas acrescentar anos à vida. É chegar mais longe com saúde, autonomia e disposição para continuar fazendo aquilo que gostamos.

E talvez seja justamente aí que exista uma contradição. Passamos uma quantidade enorme de tempo olhando para fora. Acompanhamos pelas redes sociais a vida de pessoas que muitas vezes nem conhecemos pessoalmente. Sabemos para onde viajaram, o que comeram, onde jantaram, se correram pela manhã, como estão os filhos.

Não tenho nada contra as redes sociais. Eu também estou nelas. A questão que comecei a me fazer é sobre a proporção: se temos tanto tempo e curiosidade para acompanhar a vida dos outros, quanto dedicamos para entender o que está acontecendo dentro de nós?

Porque o nosso corpo também tem uma história para contar.

Ele fala por meio do sono, do cansaço, da disposição, do movimento, da frequência cardíaca, da forma como nos recuperamos. Manda pequenos sinais o tempo todo. O problema é que muitas vezes não estamos escutando.

O cansaço vira parte da rotina. Dormir mal parece normal. Algumas semanas sem atividade física viram meses. Um exame fica para depois. E vamos seguindo.

Às vezes tenho a sensação de que existe aí uma espécie de autoabandono. Não porque decidimos, deliberadamente, não cuidar de nós mesmos, mas porque tantas outras coisas parecem vir primeiro.

Talvez estejamos ficando muito bons em enxergar o mundo através dos filtros e das telas e menos atentos àquilo que está diante de nós, inclusive nós mesmos.

Porque saúde raramente muda de uma hora para outra. Muitas vezes, o corpo vai dando pequenos sinais. E, isoladamente, é fácil ignorá-los. Quando conseguimos observar uma tendência ao longo do tempo, talvez fique mais fácil perceber que alguma coisa mudou.

É preciso ter mais consciência do nosso corpo, da nossa alma, enfim, de nós mesmos. Talvez a grande contribuição da tecnologia para a longevidade não seja nos dizer quanto tempo vamos viver, mas nos ajudar a prestar mais atenção em como estamos vivendo hoje. Aliás, relógios e anéis inteligentes podem ajudar muito nisto.

Porque, no fim, saúde não deveria ser um projeto que começa quando alguma coisa dá errado, mas uma infraestrutura de vida.

Escrevo este texto pensando em uma grande amiga que enfrenta uma doença complicada. Tantos anos juntas e muitos outros que teremos pelas frente.

Temos que cuidar de nós e umas das outras. Cuidar de nós e dos outros é um privilégio. Cuide-se.