Criatividade

CCO da LePub: ideias aniquiladas deixam a pele mais forte

Primeiro romeno a presidir um júri em Cannes, Mihnea Gheorghiu, fala sobre criar com poucos recursos, IA e ego

i 29 de setembro de 2026 - 11h48

Le Pub

Mihnea Gheorghiu, CCO global da Le Pub, falou sobre a inspiração e os desafios para a criação de ideias no painel “Conexão Global” no Maximidia 2026

A coragem para ouvir “não” de clientes é resultado de prática. É o que afirmou Mihnea Gheorghiu, chief creative officer (CCO) global da LePub, durante entrevista na trilha Conexão Global, nesta terça-feira, 29, que abriu a programação do Maximídia 2026. Primeiro romeno a presidir um júri no Cannes Lions, o executivo explicou que a resiliência vem de continuar apresentando ideias.

Gheorghiu começou a carreira aos 19 anos e contou que, na época, reagia aos “nãos” convencido de que os outros não enxergavam sua genialidade. Com o tempo, aprendeu a lidar com a rejeição. “Quanto mais ideias suas são aniquiladas, mais forte fica a sua pele, e não há outra forma de lidar com isso a não ser continuar apresentando ideias”, disse.

Para o CCO, o maior erro dos criativos é tornar a criatividade unilateral, como se a ideia beneficiasse apenas quem a criou. Segundo ele, quem desiste de querer ser o melhor perde o medo da rejeição e desperta o interesse genuíno de quem tem o poder de realizar a ideia.

Ao falar do mercado publicitário romeno, Gheorghiu disse que o país tem muita criatividade e pouco orçamento, e costumam usar o humor para rir de si mesmos, o que moldou um pensamento “street smart”. “O verdadeiro brilho da publicidade na Romênia está na ideia e nas iniciativas.”, afirmou.

Voz própria e IA

Ao falar da trajetória pessoal, o executivo disse que a ideia de que “qualquer limitação é um impulsionador” vale para o que viveu. Mihnea já morou em oito países além da Romênia e hoje vive em Milão, trabalhou quase sempre em idiomas que não eram o seu. Segundo ele, a barreira o levou a buscar uma voz própria, em vez de tentar imitar falantes nativos.

Ao comentar o impacto da IA na criatividade, Gheorghiu afirmou usar a tecnologia para separar pessoas “medíocres e preguiçosas” das realmente interessantes. Para ele, o que importa é o uso: quem se limita à primeira resposta entrega o óbvio, enquanto quem faz perguntas incomuns encontra um “trampolim” para mais criatividade.

Sobre a LePub ter sido eleita agência do ano em Cannes, disse que não há receita para o resultado. “Há tantas coisas que precisam funcionar”, afirmou. O executivo disse que no passado já se apegou muito a prêmios, mas hoje não: “Um prêmio celebra o passado”, afirmou.

Sobre o trabalho para a Heineken, defendeu que temas sérios, como o isolamento social, podem ser tratados com leveza por uma marca de cerveja. “Podemos olhar para o apocalipse e rir disso”, disse. Para o CCO, campanhas de cerveja devem dar assunto para conversar enquanto se bebe, e o humor nasce de um problema real: “90% das melhores piadas são tristes”.

Gheorghiu relembrou ainda uma campanha do início da carreira para uma ONG de vítimas de enchentes, em que manequins foram submersos no Danúbio. As peças foram roubadas horas depois, mas a ação arrecadou cerca de 60 mil euros, e um mês depois o cliente enviou vídeos de moradores reconstruindo suas casas. “Foi quando entendi o poder do que estamos fazendo”, contou.