MaxiMídia 2026

Hermann Vaske detalha os múltiplos porquês da criatividade

Documentarista alemão explora as razões pelas quais artistas, filósofos e atletas se consideram criativos

i 2 de outubro de 2026 - 17h30

Os desafios do exercício criativo talvez sejam um dos principais temas de debate nas cadeiras de criação em agências e nos times de marketing dos anunciantes. O diretor, produtor e autor alemão Hermann Vaske propõe um outro olhar: o porquê as pessoas são criativas. Nos últimos 30 anos, Vaske entrevistou artistas, filósofos, fotógrafos, atletas, arquitetos e demais profissionais para identificar as principais razões para a emergência da criatividade. A pesquisa resultou na criação de documentários, exposições e um livro sobre o tema. Todos intitulados “Why Are You Creative?” (“Por que você é criativo?”, em português).

Hermann Vaske no MaxiMídia 2026 (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

Hermann Vaske apresentou trechos de seu documentário no MaxiMídia 2026 (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

O cineasta dividiu sua obra em algumas motivações principais. Há aqueles que atribuem a criatividade a experiências familiares e à infância, os que a ligam ao divino e os que buscam, na criatividade, objetivos concretos, aprovação social ou se rebelar contra as regras sociais.

As origens da criatividade para Hermann Vaske

Para alguns dos entrevistados, a criatividade é algo que vem de casa. Pais e responsáveis aparecem como os responsáveis por transmitir esse traço, seja pela forma como educaram os filhos, seja pela genética. Steven Spielberg, Spike Lee e Isabella Rossellini estão entre os que relacionam sua capacidade criativa à família. A infância também surge nesse contexto, principalmente pela possibilidade de brincar. Para os entrevistados, preservar essa relação com a criança que foram é importante para manter a criatividade ativa.

A capacidade de surpreender é outro elemento associado à criatividade. Para o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, ela pode estar tanto na arte quanto em uma situação cotidiana, como assistir a uma partida de futebol e se deparar com uma jogada inesperada. “Arte é emoção e surpresa”, disse a Vaske. Pelé, outro brasileiro entrevistado pelo cineasta, também encontra a criatividade nas jogadas, mas atribui esse talento a Deus. A mesma relação com o divino aparece nas falas de Quentin Tarantino e Nick Cave.

A espiritualidade, porém, não aparece apenas na ideia de um talento concedido por Deus. Alguns entrevistados relacionam a criatividade ao destino, como algo que já estaria inscrito em sua própria natureza. É o caso de Niki Lauda, que a associa ao que carrega “no sangue”. Para outros, as ideias existem independentemente de quem as encontra, como se estivessem disponíveis em uma espécie de éter à espera das pessoas capazes de alcançá-las. O fotógrafo alemão Wolfgang Tillman é um dos que compartilham dessa visão.

Há também quem encontre a motivação para criar no próprio prazer de criar. Marina Abramović, por exemplo, associa sua criatividade à paixão pelo processo e pelo trabalho. Em outra direção, alguns entrevistados são estimulados pelo desejo de provocar essa paixão nos outros, tornando-se atraentes justamente por sua capacidade criativa. Vaske coloca esse grupo entre aqueles cuja criatividade também é impulsionada pela sexualidade.

Criatividade: prazer, reconhecimento e ambição

A relação com os outros aparece ainda na busca por reconhecimento. Para alguns, criar é uma forma de deixar uma marca no mundo e alcançar uma espécie de imortalidade por meio daquilo que produziram. Vaske recorre à Capela Sistina para explicar essa lógica: “Quem lembra do Papa que mandou construir a Capela Sistina? Ninguém lembra, só se lembra do artista que a pintou: Michelangelo”. Existe, porém, uma motivação quase oposta: usar a criatividade como uma forma de rejeitar a aprovação social. Nesse caso, a criação funciona como espaço de rebeldia, e as convenções e regras passam a ser vistas como obstáculos à criatividade.

A ambição também pode funcionar como combustível para a criação. Há profissionais que se tornam criativos a partir de uma obsessão por determinado resultado e passam a organizar boa parte de sua vida em torno de alcançá-lo. Essa visão também amplia a própria definição de trabalho criativo: até mesmo atividades burocráticas podem envolver criatividade.

A lógica de 1+1=3 na criatividade

Outra possibilidade identificada por Vaske é o que ele chama de “1+1 = 3”. A ideia é combinar dois elementos que, isoladamente, não parecem ter relação para chegar a um terceiro resultado. David Bowie, Lady Gaga, Tony Bennett e Michael Douglas são exemplos de entrevistados que seguem essa lógica, encontrando criatividade justamente na combinação de referências distintas.