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Os rumos da economia brasileira nos próximos anos

Economistas traçam caminhos para reequilibrar o cenário econômico e conter o avanço dos juros e endividamento

i 2 de outubro de 2026 - 16h06

Às vésperas das eleições presidenciais, a economia brasileira está em curso de desaceleração, não apenas pela indefinição em um cenário político instável, mas como resultado do acúmulo de uma política monetária restritiva.

As consequências do esgotamento do modelo atual se refletem na população, que encara um cenário de juros elevados, crédito mais caro e altos níveis de endividamento.

Solange Srour, diretora e head de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, e Ana Paula Vescovi, economista e ex-secretária do Tesouro Nacional

Solange Srour e Ana Paula Vescovi discorreram sobre o que será determinante para a economia brasileira nos próximos anos (Crédito: Máquina da Foto)

Solange Srour, diretora e head de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, chamou a atenção para a necessidade da diminuição dos juros de mercado no médio a longo prazo para, justamente, conter uma desaceleração mais aguda diante do comprometimento de renda e empregos formais.

“O senso de urgência vem quando o cenário internacional muda e nossas fragilidades ficam todas expostas”, declarou a diretora, citando a queda do câmbio desde 2024 e uma piora fiscal. Até o momento, o contexto estrangeiro tem sido favorável, a exemplo da guerra e tentativa de interferência no FED, nos Estados Unidos, enfraquecendo o dólar e estabilizando a moeda local.

A discussão mais aparente sobre a dimensão de um possível ajuste fiscal – urgente para a economia brasileira -, contudo, não é o suficiente, opinou Ana Paula Vescovi, economista e ex-secretária do Tesouro Nacional.

“O principal diagnóstico é como endereçar a aprovação de medidas que são impopulares por definição e natureza dentro de um Congresso no qual ainda veremos qual será a configuração, mas acreditamos que não mudará muito”, alegou. “É preciso formar uma coalizão política capaz de dar sustentação a medidas de ajuste fiscal e uma configuração onde a gente distribua bem essa conta”.

Seria preciso também adaptar as dinâmicas de acordo com as novas realidades do País. Entre elas estão as mudanças no mercado de trabalho, hoje multigeracional, e o envelhecimento da população brasileira. Esta última demanda a revisão do financiamento da previdência, por exemplo.

Caso bem conduzido, o ajuste poderia resultar em um cenário semelhante ao da estabilização monetária que ocorreu entre 1998 e 2002. À época, o Brasil recuperou um tripé macroeconômico mais organizado e ajustou o Produto Interno Bruto (PIB) na casa dos 3%, lembrou a ex-secretária do tesouro.

“De fato, precisamos voltar o foco ao que faz o País crescer, que é usar de forma eficiente os recursos, ter boa regulação, mais previsibilidade e segurança jurídica, um dos temas mais urgentes”, disse. Mais do que alcançar resultados satisfatórios a partir de um ajuste fiscal, Vescovi ainda reforçou a importância de recuperar a capacidade de boa execução de políticas públicas e da gestão voltada para reformas e melhorias. “O cenário desejável é fazer um ajuste antes que a crise apareça”, endossou Srour.

Recuperação e novos negócios

Os desafios financeiros têm impactado diretamente o consumo, que representa mais de dois terços da economia brasileira. Embora o cenário seja de um endividamento em patamares históricos, hoje governo e mercado têm acesso a mais ferramental para detalhar a natureza das dívidas graças à bancarização e redução da informalidade financeira.

A sensibilização do varejo é intensificada diante da concorrência internacional. Players estrangeiros, especialmente os asiáticos, vêm investindo na conquista do consumidor com a maior parte das estratégias voltadas para preço e diversificação. “A concorrência externa veio para ficar e está pesada, pois estamos vendo um aumento muito forte do protecionismo no mundo”, descreveu a diretora do UBS Global Wealth Management.

A China, por exemplo, está redirecionando exportações dos Estados Unidos para o resto do mundo, especialmente Europa e América Latina, após restrições do parceiro comercial. A medida ideal, defendeu Srour, seria aumentar a produtividade das empresas brasileiras em vez do fechamento da economia ou imposição tarifária.

Neste sentido, existem oportunidades para que o País explore seu potencial em tecnologia. Caso da inteligência artificial em data centers. A abundância de energia, diversificação de commodities e extensão em reserva de terras raras são atrativos para o investimento estrangeiro, mas também demandam maior segurança. A tecnologia, corroborou a ex-secretária do Tesouro Nacional, ainda pode ser aliada do governo em uma gestão mais eficaz.

“Pecamos na regulação, insegurança jurídica e na instabilidade macro”, endossou a Srour. “Apesar de serem projetos de médio prazo, falamos de uma inversão necessária da agenda econômica.”