OPINIÃO: LUANA GÉNOT

Escala 6×1: quem tem direito ao próprio tempo?

Democratizar o direito ao tempo é reconhecer que prosperidade também é ter liberdade para escolher como viver

Luana Génot

Fundadora e diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil 26 de outubro de 2026 - 10h00

(Crédito: Unsplash)

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O debate sobre o fim da escala 6×1 vai além das relações trabalhistas. É uma oportunidade de rever o conceito de produtividade e discutir quem tem direito ao tempo. Em uma sociedade desigual, não basta garantir acesso ao trabalho se as condições para viver além dele também são desiguais. Produtividade não é trabalhar enquanto os outros dormem. Só pode sonhar, planejar o futuro e criar possibilidades quem tem tempo para descansar e simplesmente existir.

Basta olhar para quem sai de casa de madrugada, passa horas no transporte público e volta quando a cidade já desacelerou. Ao chegar em casa, o expediente nem sempre termina. É preciso preparar a comida, limpar, cuidar dos filhos, organizar as contas e resolver o que ficou pendente. Para muitas pessoas negras, indígenas, periféricas e, especialmente, mulheres, o trabalho remunerado convive com uma segunda jornada invisibilizada. Na folga, a escolha pode ser entre colocar a vida em ordem ou reservar algumas horas para si.

É nesse cotidiano que a escala 6×1 ganha dimensão social. Quem tem apenas um dia livre por semana pode precisar escolher entre visitar a família, levar uma criança ao médico, estudar ou dormir um pouco mais. Consultas e tarefas domésticas disputam as mesmas horas, e serviços fechados aos domingos dificultam até questões básicas. O tempo também expressa desigualdades sociais.

Essas diferenças vão além do bem-estar. Ter pouco tempo limita o acesso à educação, à cultura e às redes que abrem portas no mercado de trabalho. Como investir na própria formação quando mal há tempo para recuperar as energias para a semana seguinte?

Para pessoas negras e indígenas, que enfrentam barreiras históricas de acesso e ascensão profissional, essa discussão integra uma agenda mais ampla de equidade. Uma medida isolada não resolverá desigualdades complexas, mas o direito ao tempo influencia quem acessa oportunidades e as aproveita.

O avanço da inteligência artificial torna essa reflexão ainda mais urgente. Se a tecnologia permite automatizar tarefas e realizar atividades com mais eficiência, precisamos discutir como esses ganhos serão distribuídos. A inovação não pode beneficiar apenas os indicadores de eficiência e os resultados financeiros das organizações; também deve abrir espaço para repensar as jornadas e melhorar as condições de vida. Empresas precisam rever seus modelos de gestão, enquanto o poder público deve mediar a transição para conciliar competitividade e proteção social.

Nesse cenário, grandes lideranças, marcas e a sociedade precisam se perguntar: que modelo de produtividade queremos incentivar? Não basta defender diversidade, bem-estar e inovação se as práticas cotidianas continuam premiando a disponibilidade permanente e associando valor profissional ao número de horas trabalhadas.

Cabe às empresas rever metas, jornadas e culturas organizacionais, ouvir seus profissionais e avaliar resultados sem confundir presença com contribuição. As marcas também influenciam a maneira como entendemos sucesso e realização. Por meio de suas decisões e de sua comunicação, podem reforçar a lógica de que estar sempre ocupado é sinal de valor ou ajudar a construir uma visão de prosperidade que inclua saúde, convivência e autonomia. O desafio é transformar posicionamentos em práticas concretas e reconhecer que o impacto de uma organização também se mede pelas condições de vida que ajuda a promover.

Entretanto, ampliar o tempo disponível é apenas parte da discussão. É preciso garantir que ele possa ser vivido com qualidade, por meio do acesso à saúde mental, à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer. Empresas, instituições e governos podem contribuir para ampliar essas possibilidades, sem determinar como as pessoas devem ocupar suas horas livres. Afinal, o descanso não precisa se justificar pela produtividade. O ócio, o tédio, a convivência e a possibilidade de não fazer nada também fazem parte de uma vida com dignidade.

O debate sobre o fim da escala 6×1, portanto, nos convida a repensar o próprio conceito de desenvolvimento. Um país não pode medir sua prosperidade apenas pelo volume produzido, pelas horas trabalhadas ou pela eficiência das empresas. É preciso considerar também a saúde, a distribuição de oportunidades e a autonomia. O fim deste modelo pode representar um passo importante, desde que acompanhado de condições concretas para reduzir desigualdades. Democratizar o direito ao tempo é reconhecer que a prosperidade também significa ter liberdade para escolher como queremos viver.